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Espaço e Geointeligência como infraestrutura crítica do século XXI: tendências globais e desafios para o Brasil

O mercado espacial e geoespacial caminha para US 1,2 trilhão até 2030, impulsionado por soberania tecnológica e modelos baseados em dados. Para não depender externamente, o Brasil precisa elevar investimentos e estruturar infraestrutura espacial estratégica e resiliente

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O Relatório GeoBuiz 2026: Perspectivas da indústria global espacial e geoespacial para 2030, da Geospatial World Consulting, projeta que o mercado global integrado de espaço e geoespacial alcançará, aproximadamente, US$ 1,2 trilhão até 2030. Essa cifra não representa apenas crescimento setorial; ela indica a consolidação do domínio espacial e da inteligência geoespacial (GEOINT) como infraestrutura econômica crítica, comparável à energia, telecomunicações ou semicondutores.

O relatório demonstra que esse crescimento decorre da convergência entre três grandes segmentos tecnológicos – Sistemas de Informações Geográficas e Inteligência Geoespacial (GEOINT), Observação da Terra integrada, e Sistemas Globais de Navegação por Satélite/ Posicionamento – articulados por novos modelos de negócio baseados em dados, plataformas digitais e serviços contínuos. O valor não está mais no ativo físico isolado, mas na capacidade de transformar dados espaciais em inteligência operacional e vantagem competitiva.

Um elemento central dessa expansão é o volume de investimentos soberanos já comprometidos mundialmente, superior a US$ 385 bilhões. Esses aportes nacionais funcionam como âncora estrutural do mercado. Ao financiarem constelações, infraestrutura de posicionamento, centros de dados, e sistemas de monitoramento estratégico, os governos reduzem risco para o capital privado, criam previsibilidade de demanda e estimulam ecossistemas industriais domésticos. A soberania espacial deixou de ser apenas ambição tecnológica para tornar-se instrumento de resiliência econômica e segurança nacional. Assim, o mercado trilionário projetado para 2030 é, em grande medida, consequência direta dessa base soberana.

As tendências de investimento até 2034 reforçam essa lógica. Observam-se as seguintes prioridades:

A ênfase desloca-se do simples acesso ao espaço para o controle do ciclo completo de geração, processamento e uso estratégico de dados. O espaço passa a ser entendido como infraestrutura digital distribuída, integrada à economia de dados.

O crescimento do mercado geoespacial entre 2025 e 2030 ocorre de maneira particularmente intensa em defesa, agricultura de precisão, infraestrutura crítica, energia, mineração, mobilidade e gestão climática. Esses setores absorvem inteligência espacial (GEOINT) porque enfrentam riscos sistêmicos crescentes: instabilidade geopolítica, mudanças climáticas, insegurança alimentar e transição energética. A demanda por dados quase em tempo real, combinados com algoritmos de inteligência artificial e plataformas interoperáveis, transforma observação da Terra e posicionamento de alta precisão em ferramentas de governança e produtividade.

As forças motrizes estruturais identificadas no relatório – fragmentação geopolítica, digitalização industrial, urbanização acelerada e emergência climática – convergem para uma mesma conclusão: países que dominarem infraestrutura espacial e geoespacial dominarão a capacidade de gerir risco sistêmico. Nesse contexto, os vetores tecnológicos assumem papel decisivo. A integração de IA e machine learning à análise de imagens, o processamento em nuvem nativo, a fusão de sensores, os sistemas de posicionamento híbridos, e os gêmeos digitais nacionais, ampliam o valor econômico da informação espacial. O diferencial competitivo migra do hardware para a inteligência acionável.

Essa transformação tecnológica impulsiona também a evolução dos modelos de negócio. O setor abandona progressivamente o paradigma de propriedade de ativos para adotar modelos baseados em acesso e resultados. Satélites tornam-se parte de ofertas Espaço-como-Serviço (SaaS); imagens transformam-se em insights contínuos; e softwares deixam de ser licenciados isoladamente para compor plataformas vivas, orientadas a assinaturas e monetização recorrente de dados. A criação de valor passa a depender da capacidade de entregar resultados mensuráveis a governos e empresas, e não apenas infraestrutura.

No cenário global, os investimentos convergem para cinco direções estratégicas: soberania tecnológica, resiliência climática, segurança alimentar e energética, defesa e inteligência espacial (GEOINT), e consolidação de economias digitais baseadas em dados geoespaciais. Grandes economias destinam percentuais significativos do PIB a programas espaciais integrados. Os Estados Unidos situam-se na faixa de 0,25% a 0,35% do PIB quando se consideram componentes civis e de defesa; França e China operam em torno de 0,20%; a Índia mantém níveis mais modestos, porém consistentes, entre 0,06% e 0,08%. O Brasil, por sua vez, investe aproximadamente 0,02% do PIB em seu programa espacial, posicionando-se abaixo de países com capacidade econômica comparável.

Diante dessa realidade, o Brasil enfrenta uma encruzilhada estratégica. Com dimensão territorial continental, vastos recursos naturais, protagonismo agroambiental e vulnerabilidades específicas na Amazônia e nas fronteiras, o país depende – intensamente – de dados espaciais, mas ainda não controla plenamente a infraestrutura que os gera. A dependência de sistemas estrangeiros de posicionamento e de imagens de alta resolução espacial limita a autonomia decisória em áreas críticas. Se desejar alinhar-se ao padrão mínimo de economias emergentes com ambição estratégica, o Brasil deveria elevar seus investimentos para algo entre 0,08% e 0,12% do PIB, o que corresponderia, considerando um PIB aproximado de US$ 2 trilhões, a investimentos anuais entre US$ 1,6 e 2,4 bilhões. Um sonho… Mas tal patamar permitiria estruturar constelações nacionais de observação de uso dual, sistemas complementares de PNT resiliente, infraestrutura geoespacial soberana em nuvem, e uma indústria downstream robusta baseada em análises e serviços.

O mercado de US$ 1,2 trilhão projetado para 2030 não representa, apenas, uma oportunidade econômica: ele sinaliza uma reconfiguração da soberania contemporânea. Países que controlarem dados espaciais, integrarem inteligência artificial a sistemas de observação e posicionamento, e estruturarem modelos orientados a serviço, serão capazes de moldar a próxima fase da economia digital. O Brasil dispõe de vantagens naturais e capacidades científicas relevantes, mas sua posição futura dependerá de decisões de investimento estruturadas e contínuas. Permanecer como consumidor de dados ou tornar-se produtor estratégico é, essencialmente, uma escolha de política pública e visão de longo prazo.


* Ivan Oliveira – DSc., Analista de Geointeligência, Consultor Sênior e Titular na BTI Tecnologia & Inteligência, Professor-Adjunto na Escola Superior de Defesa (ESD), e Veterano do Exército (Coronel)

Imagem de capa: Pixabay

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