O Brasil acaba de dar um passo concreto para ampliar sua autonomia científica e tecnológica no monitoramento da Amazônia. O ATTOSat, projeto de satélite dedicado à observação atmosférica da região, foi oficialmente admitido pela Agência Espacial Brasileira (AEB) para integrar a Carteira de Qualificação do ProSAME – processo que transforma propostas técnicas em projetos estruturantes do Programa Espacial Brasileiro.
A admissão reconhece a maturidade inicial da proposta e autoriza o avanço para estudos aprofundados de viabilidade técnica, científica e orçamentária. Caso cumpra todas as exigências dessa fase, o projeto poderá ser incluído na Carteira de Execução, tornando-se uma missão oficial do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE 2022–2031), documento que orienta o desenvolvimento do setor espacial brasileiro com foco em soberania, uso estratégico de dados e inovação tecnológica.
O que é o ATTOSat
A missão ATTOSat prevê o desenvolvimento e o lançamento de um microsatélite no padrão cubesat dedicado ao monitoramento atmosférico da Amazônia, com execução estimada em 48 meses. A missão é conduzida pela empresa Concert Space com o apoio da AEB e de instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o Centro de Estudos Amazônia Sustentável (CEAS) da Universidade de São Paulo (USP) e o Departamento de Multifase do Instituto Max Planck de Química, da Alemanha, além da participação de outras empresas nacionais do setor espacial.
“A entrada do ATTOSat na Carteira de Qualificação da AEB significa que o projeto passa a ser avaliado como uma missão com potencial real de entrega à sociedade brasileira, alinhada às prioridades estratégicas do país. É o momento em que reduzimos incertezas e demonstramos que temos capacidade técnica, científica e programática para executar,”
afirma o CEO da Concert Space, Rafael Mordente.
Monitoramento estratégico da Amazônia
A floresta amazônica desempenha papel fundamental na regulação do clima, nos regimes de chuva da América do Sul e no equilíbrio do carbono global, mas ainda carece de um sistema espacial dedicado ao monitoramento atmosférico tropical. Atualmente, grande parte dos dados utilizados pelo país provém de satélites estrangeiros, muitas vezes não projetados para as especificidades da região amazônica.
“Isso limita a precisão das análises e compromete decisões estratégicas em áreas como adaptação climática, prevenção de desastres, segurança hídrica e energética”,
explica Mordente.
O ATTOSat foi concebido para preencher essa lacuna, expandindo para o espaço as medições realizadas pelo Amazon Tall Tower Observatory (ATTO), iniciativa científica Brasil–Alemanha que coleta dados atmosféricos em solo, em uma torre de 325 m de altura. Equipado com sensores hiperespectrais e polarimétricos, o satélite permitirá observar variáveis como aerossóis naturais e de poluição, assim como o tamanho das gotas e a identificação da presença de gelo nas nuvens em alta resolução, com foco em ambientes tropicais. Além disso, será possível ampliar a área de análise para toda a região tropical do planeta, oferecendo uma contribuição relevante do Brasil para o monitoramento do clima nessa faixa do globo, onde estão localizadas as florestas tropicais, essenciais para a regulação do clima terrestre.
A estrutura colaborativa do projeto é um dos pontos centrais avaliados no processo de qualificação. A equipe científica do ATTO será responsável por integrar as medições em solo com os dados orbitais, garantindo consistência científica. O Instituto Max Planck de Química, contribui com expertise internacional em química atmosférica e processamento avançado de dados. Universidades e empresas do setor espacial participam do desenvolvimento tecnológico, validação científica e formação de mão de obra qualificada.
Os dados gerados serão disponibilizados em uma plataforma digital aberta e gratuita, acessível à comunidade científica, gestores públicos, empresas e sociedade civil. A expectativa é apoiar políticas públicas, fortalecer sistemas de previsão e estimular inovação baseada em dados espaciais.
Impactos para a sociedade
Os impactos esperados vão além da pesquisa acadêmica e tecnológica. Informações mais precisas sobre o comportamento atmosférico da Amazônia podem apoiar políticas públicas envolvendo as mudanças sendo observadas no regime de chuvas no Brasil, que impactam a produtividade agrícola do Brasil central. Também visa dar subsídios mais sólidos para a atuação da defesa civil frente a secas, enchentes e queimadas e subsidiar decisões em setores como energia, transportes e saúde pública.
Posicionado em uma órbita quase equatorial, o ATTOSat ampliará a capacidade de observação contínua do cinturão tropical, fortalecendo a participação do Brasil em pesquisas climáticas e apoiando o monitoramento de fenômenos atmosféricos relevantes, como poluição urbana, queimadas e transporte de aerossóis sobre o Atlântico.
O ATTOSat contribuirá para reduzir incertezas científicas sobre o papel dos aerossóis na formação de nuvens e chuvas, especialmente na região tropical. O satélite permitirá investigar como as emissões de queimadas e da poluição urbana influenciam os regimes de precipitação, além de monitorar o transporte intercontinental de partículas, como fumaça de incêndios e poeira do Saara que chega à Amazônia. São aspectos estratégicos para o Brasil e a Amazônia.
Para as populações da Amazônia Legal – cerca de 27,8 milhões de pessoas, incluindo comunidades indígenas, ribeirinhas, rurais e urbanas , o acesso a dados confiáveis pode significar redução de vulnerabilidades sociais, apoio na formulação de políticas públicas e maior capacidade de adaptação a eventos climáticos extremos.
Com informações da ATTOSat
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