São Paulo é a cidade com a maior frota de helicópteros do mundo, com mais de 400 aeronaves registradas e voando dia após dia. O movimento é tão intenso que um centro de controle de tráfego aéreo exclusivo para as asas rotativas — o Helicontrol — precisou ser criado em 2004 e hoje garante o fluxo ordenado e seguro dos helicópteros.
Essas aeronaves são fundamentais para os deslocamentos aéreos na capital paulista e não só para executivos, mas também para operações de resgate aeromédico e segurança pública. Elas, porém, têm algumas limitações, como alto custo, ruído e uma dificuldade para escalar o uso e chegar a mais pessoas. E é aí que entram os eVTOLs, as aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical.
Os eVTOLs, erroneamente batizados de “carros voadores”, são mais silenciosos e têm um custo operacional mais baixo, sendo feitos sob medida para o ambiente urbano e para cumprirem rotas curtas e frequentes. Eles ainda estão em desenvolvimento, mas ainda neste ano devem começar a voar comercialmente. No Brasil teremos que esperar pelo menos até 2028.
A questão que emerge é se os eVTOLs substituirão os helicópteros no futuro. É impossível cravar uma resposta, mas a tendência é que eles convivam por muitos anos e dividam o mesmo espaço aéreo. A diferença será o uso e quem terá acesso. Com um custo mais baixo, a expectativa é que essas aeronaves elétricas assumam grande parte das operações de helicópteros, especialmente a de transporte de passageiros. E os helicópteros fiquem com operações mais complexas, como resgates, operações offshore e atividades de segurança.
Essa transição conversa diretamente com a visão de Alberto Santos Dumont, que no início do século 20 imaginava um futuro em que voar faria parte da vida cotidiana. Sua aeronave leve, o Demoiselle, já apontava para essa ideia de simplificação e democratização do voo. É importante deixar claro, desde já, que o eVTOL não será um modal de massa. Assim como o helicóptero, será restrito a um público com maior renda.
Além disso, a imagem de que os eVTOLs transformarão as cidades em uma cópia dos Jetsons é pura ficção. E seguirá assim. Custo, segurança, organização do espaço aéreo, autonomia, regulamentação e infraestrutura tornam a possibilidade de massificação, de que cada pessoa terá o seu eVTOL, um mero sonho. Isso é pouco crível no curto e médio prazos e até mesmo daqui muitos anos.
O que está realmente acontecendo é mais pragmático — e, ao mesmo tempo, mais transformador. A mobilidade aérea avançada está criando um modelo de acesso compartilhado ao espaço aéreo. Em vez da posse individual, veremos serviços sob demanda, rotas fixas e integração com aeroportos.
Essa transformação será gradual. Até 2030, veremos as primeiras operações comerciais ganhando escala em algumas cidades. Entre 2030 e 2040, a tendência é de expansão mais consistente, com a consolidação de infraestrutura como os vertiportos e a evolução dos sistemas de gestão do tráfego aéreo de baixa altitude.
Para o Brasil, esse movimento traz uma oportunidade relevante. Com uma indústria aeronáutica consolidada e grandes centros urbanos que enfrentam desafios de mobilidade e com enorme potencial turístico, o país tem condições de participar ativamente dessa nova fase.
As oportunidades estão batendo à porta não só na fabricação das aeronaves, mas no desenvolvimento do amplo ecossistema de fabricação de baterias, construção e gerenciamento dos vertiportos, operadores dos eVTOLs e desenvolvedores de soluções da gestão do espaço aéreo. Um mercado de muitos bilhões de dólares.
É isso que viabilizará esse futuro da mobilidade aérea no Brasil e no mundo. E esse futuro será construído junto com os helicópteros.
*Emerson Granemann é CEO da MundoGEO e idealizador da feira Expo eVTOL.
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