A Assembleia Geral da ONU acaba de dar um passo importante para corrigir distorções presentes em mapas-múndi amplamente utilizados, particularmente na projeção de Mercator, que é considerada uma representação inadequada do tamanho relativo dos continentes e contribui para uma percepção reduzida da África e de outras regiões equatoriais, segundo o comunicado oficial.
Concluindo seus trabalhos substantivos da 80ª sessão, que termina em 8 de setembro, a Assembleia adotou vários projetos de resolução e decisões. Entre eles, destacou-se o projeto de resolução intitulado “Corrigir o mapa: reequilibrar a representação cartográfica global e promover uma representação equitativa das regiões do mundo, particularmente da África”, aprovado com 164 votos a favor, 1 contra (Estados Unidos) e 6 abstenções (Estônia, Geórgia, Lituânia, República da Moldávia, Sérvia e Ucrânia).
O texto pede uma utilização mais ampla de projeções cartográficas de áreas equivalentes, particularmente a projeção Equal Earth, em contextos nos quais o tamanho comparativo dos continentes seja relevante, tratando a questão como algo que vai além de um problema técnico de cartografia.
Justiça cognitiva, reconhecimento histórico e representação equitativa
Os países patrocinadores argumentaram que mapas distorcidos afetam a educação, a compreensão pública, a cultura, a geopolítica, as narrativas sobre desenvolvimento e a percepção sobre a dimensão e o potencial da África. A resolução, portanto, relaciona uma representação cartográfica mais precisa à justiça cognitiva, ao reconhecimento histórico e à representação equitativa.
Ao apresentar o texto em nome do Grupo de Estados Africanos, o representante do Togo afirmou que as Nações Unidas vêm enfrentando progressivamente os desequilíbrios herdados do passado:
“Hoje, a questão dos mapas como ferramenta cognitiva merece nossa atenção coletiva. Como representamos o mundo? Como o ensinamos? Como as gerações aprendem a enxergar nosso planeta?”
Durante séculos, as projeções cartográficas utilizadas em livros didáticos, meios de comunicação, plataformas digitais e documentos oficiais distorceram o tamanho relativo dos continentes, diminuindo simbolicamente a África e outras regiões e perpetuando uma visão desequilibrada da geografia mundial.
Manifestando apoio ao texto, o representante da Federação Russa afirmou que Moscou tem defendido de forma consistente a superação do legado do colonialismo e o combate às práticas de neocolonialismo. Segundo ele, seu país apoia os esforços independentes dos Estados africanos para restaurar a justiça histórica e fortalecer o papel da África como um dos centros únicos e influentes do mundo multipolar contemporâneo.
Projeções cartográficas
Projeções cartográficas são transformações matemáticas que permitem representar, em um plano, a superfície curva da Terra, definida por um modelo geodésico como o elipsoide de referência. Elas estabelecem uma relação entre as coordenadas geográficas — latitude e longitude — e coordenadas planas, normalmente expressas como X e Y.
Como não é possível projetar uma superfície curva sobre um plano sem deformações, cada projeção apresenta diferentes padrões de distorção de área, forma, distância, escala e direção. Assim, a escolha da projeção deve considerar a extensão territorial, a escala e a finalidade do mapeamento, priorizando a propriedade geométrica mais importante para a aplicação.
Com informações da ONU
Imagem de capa: Wikimedia Commons
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