Por Alexandre Scussel

Pesquisas do Parque Tecnológico de Itaipu são aplicadas dentro e fora da usina e contribuem para a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento regional

Maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia, a Itaipu é uma obra que encanta pela suas dimensões e pelos seus aspectos tecnológico e ambiental. Com uma potência instalada de 14 mil megawatts, a usina de Itaipu abastece o equivalente a 18,9% do consumo de energia elétrica do Brasil e cerca de 77,% de toda a energia consumida no Paraguai.

Geo em Itaipu Geotecnologia e conhecimento a favor da sociedadeEm 2003, a usina ampliou sua missão empresarial, visando executar ações que impulsionassem o desenvolvimento regional, econômico, turístico, tecnológico e sustentável em ambos os países. Nesse contexto foi criado o Parque Tecnológico Itaipu (PTI). Instalado nos antigos alojamentos dos operários que construíram a usina de Itaipu, o parque conta com uma área de 116 hectares. Neste ambiente, o PTI reúne ações em duas vertentes: desenvolvimento regional e retorno à Itaipu. Ao caminhar por alguns minutos em suas instalações, é possível perceber que o parque trabalha para promover avanços científicos e tecnológicos e, dessa forma, participar do desenvolvimento regional, atuando também no processo de modernização da usina.

Com espaço para formação, capacitação e incentivo à pesquisa, o PTI trabalha de forma integrada com instituições de ensino, recolhendo muitas vezes alunos para atuar junto ao Parque. As instituições instaladas no PTI são: Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Universidade Aberta do Brasil (UAB), Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e a Escola Técnica Aberta do Brasil (e-Tec). Assim, não é incomum observar muitos “rostos jovens” integrando o corpo de funcionários do PTI, sem renunciar o caráter responsável e comprometido com a inovação tecnológica.

Hidroinformática

Sendo uma binacional, um dos desafios do PTI é trabalhar em conjunto com laboratórios e pesquisadores localizados dos dois lados da usina. Através de equipes multidisciplinares, o parque transpõem muitas barreiras físicas e culturais. Um exemplo é o Centro Internacional de Hidroinformática (CIH), resultado de uma parceria entre a Itaipu Binacional e o Programa Hidrológico Internacional da Unesco. Visando promover o acesso universal à hidroinformática com o uso de softwares livres, o CIH trabalha em quatro áreas temáticas: gestão de bacias hidrográficas, modelagem hidrológica, plataforma web de gestão territorial e a plataforma Web Rádio Água (WRA).

O Centro tem seu foco de atuação na América Latina e Caribe, mas desenvolve projetos para vários locais, inclusive na África, visando promover o acesso das pessoas à água, trabalhando a relação das pessoas com o meio ambiente e o entorno dos recursos hídricos, através do desenvolvimento de tecnologias para acesso à informação. Como base de território para os estudos o CIH utiliza a bacia Hidrográfica do Paraná III (área de abrangência da usina). O Centro promove o desenvolvimento por meio de três frentes de atuação: o Cadastro Técnico Multifinalitário (CTM), a plataforma interativa WRA e a comunidade brasileira do software livre gvSIG, que teve início através de uma iniciativa do CIH.

A fim de disponibilizar e interpretar os dados coletados em pesquisas, como auxílio à tomada de decisão e modelagem hidrológica, o Centro faz uso de sistemas de informação. Para o processamento e estudo de dados, o CIH produz modelos hidrológicos, que demonstram o risco de ocorrência à seca, inundação e outros impactos, por exemplo. Para permitir o acesso e compartilhamento a estas informações, por parte da sociedade, o Centro possui ferramentas como a WRA.

Plataforma unificada

O uso e desenvolvimento de sistemas de geoprocessamento pelo CIH se dá, principalmente, pelo software livre gvSIG, para a produção de material cartográfico. Segundo Rafael de Aguiar Gonzalez, engenheiro ambiental do PTI, “o gvSIG atende as necessidades do Centro para a geração de dados cartográficos, sendo compatível com padrões internacionais do OGC e com projetos gerados pela Usina, esta que por sua vez utiliza o software ArcGIS”. Para processar e disponibilizar os dados gerados pelo corpo de engenheiros do PTI, o Centro utiliza como ferramenta padrão o gvSIG e também outros, como o QuantumGIS, para fazer validações e verificações. O CIH, conforme afirma Marcos Roque da Rosa, utiliza a plataforma Java para o desenvolvimento de sistemas para web, banco de dados PostgreSQL e extensão PostGIS. “Estamos agora com um projeto que irá unificar todas informações geográficas em uma base de dados centralizada. Vemos, atualmente, várias organizações tentando fazer esta plataforma unificada. É um grande desafio categorizar tantas classes de informações”, afirma o analista de sistemas.

O Centro de Hidroinformática, como afirma Gonzalez, trabalha através de parcerias com empresas e instituições para o desenvolvimento da inovação tecnológica, por se tratar de um programa do PTI que não visa o lucro. Além disso, o CIH ministra regularmente cursos de atualização, dentre eles de manuseio do gvSIG. Dentre as plataformas de cadastro técnico que o CIH vêm desenvolvendo, hoje, está o Sistema Gestor de Energias Renováveis, que possibilita a integração entre geração e consumo de energia elétrica por meio da visualização geográfica e a emissão de relatórios do potencial energético dessas fontes. Outro exemplo é o Sistema de Qualidade de Plantio Direto na Palha, que possibilitará o cadastro, cálculo de indicadores e visualização geográfica de informações e parâmetros das propriedades, classificando-as em relação à qualidade do plantio. Outro projeto em desenvolvimento pelo CIH é o Sistema Informações de Energias Renováveis para América Latina e Caribe, que irá ampliar a base de informações energéticas da Organização Latino-Americana do Desenvolvimento Energético (Olade). O sistema proporcionará a visualização dessas informações, de cada país, georreferenciadas através de mapas interativos.

Segurança de barragens

O Parque Tecnológico de Itaipu conta com um Centro de Estudos Avançados em Segurança de Barragens (Ceasb), que desenvolve pesquisas e atende às demandas da Itaipu Binacional. Paralelo a isso, o Ceasb também proporciona o desenvolvimento técnico-científico da região, por meio de pesquisas realizadas por universidades, parceiros e pelo meio técnico da Itaipu Binacional. São pesquisas que têm como base os dados técnicos da Usina, relacionados com o comportamento das estruturas da barragem e seus respectivos materiais. Tais estruturas e materiais são modelados e simulados, utilizando parâmetros resultantes da instrumentação.

Assim como outros setores do PTI, o Centro também busca, nas universidades parceiras, novos profissionais para compor seu quadro de pesquisadores, em diferentes linhas de pesquisa, como modelagem 3D, simulação, robótica, sustentabilidade em UHE, métodos numéricos aplicados a engenharia, monitoramento estrutural, concreto, instrumentação, geotecnia, base de dados, realidade aumentada e cadastro. O Ceasb conta atualmente com 75 bolsistas. Na linha de modelagem 3D, com o aporte de softwares específicos, tais como Ansys e SolidWorks, o Ceasb produz projetos de simulação em 3D, capazes de auxiliar no monitoramento de barragens, identificando fissuras, por exemplo. A realização de modelos em 3D é um projeto que está sendo implementando atualmente, e que visa modernizar o arquivo técnico da usina – feito manualmente em 2D durante a construção da barragem – facilitando o acesso a essas informações e o trabalho de manutenção e operação, com um arquivo técnico digital disponível na rede.

Outra linha de pesquisa desenvolvida pelo Centro é o cadastro de barragens, realizado através de uma parceria com o Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB). No sistema web, que já se encontra disponível para associados do CBDB, pode ser feito o cadastro de todas as barragens do Brasil. O sistema conta com informações referentes a dados da barragem da usina, tais como produção de energia, localização, altura, entre outras. Para a linha de pesquisa que trata de geotecnia, o Ceasb utiliza o ArcGIS e também o Grass e o Spring. Já na linha de pesquisa sobre realidade aumentada, atualmente o Centro vem desenvolvendo projetos que visam auxiliar no treinamento e o trabalho de funcionários, durante inspeções e manutenções. Segundo engenheiro do Ceasb, “quando o funcionário for realizar a manutenção da barragem, ao focar seu tablet nos instrumentos, todas as informações coletadas serão mostradas e armazenadas em seu banco de dados”.

Sustentabilidade e comprometimento social

Muitos dos projetos desenvolvidos pelo Parque Tecnológico de Itaipu são voltados para a utilização e desenvolvimento de energias renováveis, em especial com resíduos sólidos rurais e urbanos. Para disseminar o uso de tais energias, o PTI conta com a Plataforma Itaipu de Energias Renováveis (Pier), que visa demonstrar a viabilidade técnica, econômica e ambiental do uso de fontes renováveis de energia. A plataforma atua na criação de novas oportunidades de negócios e busca proporcionar autonomia energética para os setores agropecuário e agroindustrial da região oeste do Paraná, paralelamente a um processo de saneamento ambiental. Ao desenvolver a metodologia da Pier, a Itaipu atua como articuladora de diferentes atores econômicos e sociais, como instituições de ensino e pesquisa, associações e cooperativas, empresas e governos.