Áreas desflorestadas da Amazônia estão se regenerando. Parte considerável de vegetação secundária, correspondente a 113 mil km², permaneceu inalterada entre 2008 e 2012. A extensão é 2,5 vezes maior que o número de desflorestamento ocorrido nesse período na região, que chegou a 44 mil km².

Regeneração da Amazônia é maior que o desflorestamento Sistema revela que regeneração da Amazônia é maior que o desflorestamentoA vegetação secundária é aquela que se forma em áreas onde a floresta original foi eliminada. Essa nova cobertura vegetal tem papel importante para o equilíbrio da biodiversidade, o balanço de sequestro de carbono e os serviços ambientais. Por isso, é fundamental que ela seja monitorada e qualificada.

Os resultados da avaliação da dinâmica do uso e cobertura da terra na Amazônia Legal Brasileira fazem parte do projeto de pesquisa TerraClass realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Pesquisadores das duas instituições mapearam o uso e a cobertura das terras das áreas desflorestadas da região, considerando as classes temáticas agricultura anual, pasto limpo, pasto sujo, pasto com solo exposto, regeneração com pasto, vegetação secundária, mosaico de ocupações, mineração, área urbana e reflorestamento. O estudo identificou que, dos 172 mil km² de vegetação secundária mapeados em 2012, 66% permanecem inalterados desde 2008, quando houve o primeiro levantamento.

A intensificação no uso de tecnologias agrícolas mais sustentáveis, aliada a políticas públicas, como o Plano Agricultura de Baixa emissão de Carbono (ABC), e a mecanismos de fiscalização e controle mais eficientes explicam os resultados. “Com a adoção de uma agricultura mais intensiva em áreas já ocupadas, diminui a pressão da agricultura sobre as áreas de vegetação e o impacto sobre a floresta é menor”, afirma Alexandre Camargo Coutinho, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, que atua no TerraClass.

Outro dado significativo é que a agricultura anual está crescendo a uma taxa constante, passando de 34 mil km², em 2010, para 39 mil km², principalmente em áreas de pastagens. Dos 42 km² de agricultura anual mapeados, 83% estão em áreas que tinham essa mesma atividade em 2010 e 15%, onde havia pasto. Por outro lado, as áreas de pastagens estão praticamente estáveis.

Esse também é um reflexo dos esforços do governo e instituições de pesquisa agropecuária, que vêm incentivando o setor produtivo a recuperar áreas de pastagem degradadas por meio da expansão da agricultura em regiões de pasto, promovendo uma integração entre lavoura, pecuária e floresta. Com isso, a pressão da agricultura sobre novas áreas diminui e, consequentemente, o impacto no desflorestamento.

“Neste terceiro ano, passamos a ter uma ideia a respeito da dinâmica que ocorre na Amazônia. Estudos anteriores ao projeto eram pontuais e, por isto, relatavam a dinâmica de uma região. Com o TerraClass, começamos a ver as especificidades regionais”, conta o pesquisador do Centro Regional da Amazônia (CRA/Inpe) Marcos Adami.

O TerraClass se baseia em dados gerados pelo Programa de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes), executado pelo Inpe, com o intuito de produzir uma estimativa da taxa anual de desflorestamento. Para o desenvolvimento do relatório foram mapeados 751 km², o que corresponde à área total do desflorestamento ocorrido de 1988 até 2012.

As zonas de vegetação secundária correspondem a 22% do total do território mapeado, ficando atrás somente das classes de pasto que, juntas, predominam com aproximadamente 60%. Já a agricultura anual ocupa 5,64% desses espaços. O mosaico de ocupações, termo utilizado para se referir às zonas onde há uma associação de diversas modalidades de uso da terra, preenche pouco mais de 1% da área desflorestada. Já a mineração corresponde a 0,14% e a área urbana ocupa 0,71%, embora tenham apresentado crescimento de 7,5% e 6,9% ao ano, respectivamente.

Informações públicas

As informações e os mapas gerados pelo projeto são usados por órgãos governamentais, entidades da sociedade civil e empresas, para terem conhecimento a respeito do uso e ocupação da terra na região. Todos os dados gerados pelo TerraClass são de conhecimento público e podem ser consultados por meio do site. Entretanto, como as informações estão disponíveis em um formato técnico, atualmente são os gestores e pesquisadores que mais fazem uso delas. Por isso, está sendo desenvolvido um portal na internet para que qualquer pessoa possa consultar esses dados.

“Estamos criando um sistema de WebGIS, que integrará informações espaciais do projeto  e que não vai precisar de conhecimento específico em geotecnologia para ser usado”, conta o pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária Júlio Esquerdo. Já foi desenvolvido um protótipo do sistema, que deve estar acessível em 2015.

A base de dados e informações do TerraClass é enorme. Quando o sistema estiver pronto, vai ser possível visualizar o mapa da região e selecionar uma área, em dimensão estadual, municipal ou por bacia hidrográfica, gerando gráficos ou tabelas que mostram a dinâmica das atividades efetuadas, de 2008 a 2012.

A ferramenta é importante para ampliar a capacidade de análise e ajudar tanto gestores, como pesquisadores e representantes do setor produtivo na tomada de decisão. Pela internet, um morador de qualquer estado da Amazônia Legal será capaz de visualizar o seu município e selecionar as informações de seu interesse, seja para a realização de estudos ou negócios. Também serve como subsídio para a revisão e formulação de políticas públicas dos governos estaduais e federal que apoiem a exploração do potencial produtivo da região e, ao mesmo tempo, a preservação dos recursos naturais.

Dados apontam recuperação de pastagens

“Na minha propriedade não entram três ‘as’: agrônomo, adubo e arado.” A frase era ouvida com certa frequência pelo pesquisador Moacyr Dias-Filho, da Embrapa Amazônia Oriental, no início da sua carreira, nos anos 1970. Os pecuaristas daquela época eram pouco afeitos às inovações tecnológicas e praticavam quase um extrativismo na sua relação com o gado e a pastagem. “Em vez de criar, eram criados pelo gado”, brinca Dias-Filho, que testemunhou a mudança desse quadro ao longo dos anos em que vem trabalhando na pesquisa com pastagens na região.

Segundo o pesquisador, nos últimos anos o setor se profissionalizou, passou a investir na terra e praticamente deixou de avançar sobre as áreas de vegetação natural. “As pressões de mercado e ambientais têm levado muitos produtores, inclusive um número crescente de pequenos produtores de leite, a optar pela recuperação de pastagens, já que o abandono e abertura de novas áreas normalmente já não é mais possível e viável”, explica Dias-Filho.

Essa tendência é revelada nos dados do TerraClass. A pesquisa agropecuária também foi uma das causas da mudança nesse quadro. Até o final dos anos 1970, as opções tecnológicas para formação e manejo de pastagens na região amazônica eram muito reduzidas. “Havia desconhecimento sobre a necessidade de adubação de pastagens e as opções de forragens disponíveis eram pouco eficazes”, conta Dias-Filho.

Um dos marcos nessa trajetória foi o projeto Propasto. Entre meados dos anos 1970 a meados dos anos 1980, ele gerou e testou tecnologias para a recuperação da produtividade das pastagens na região amazônica. “A partir dos anos 1980, diversas cultivares de capins foram introduzidas na região, tendo sido, em grande parte, responsáveis pelo aumento da produtividade das pastagens locais. Hoje, praticamente 100% dos capins plantados nas pastagens da região e usados na recuperação de pastagens degradadas foram introduzidos pela Embrapa”, avalia Dias-Filho.

Se a tecnologia hoje está disponível para os produtores investirem na recuperação de pastagens, o mesmo não pode ser dito dos insumos necessários para esse trabalho. Segundo o pesquisador Alfredo Homma, da Embrapa Amazônia Oriental, os custos com calcário ou fosfato, por exemplo, são elevados na região e dificultam que a recuperação atinja uma proporção adequada. “As pastagens na região têm duração média de 10 anos. Sendo assim, seria preciso recuperar a cada ano 10% do total de pasto, cifra da qual ainda estamos longe”, estima o pesquisador.

Para Homma, é preciso uma política agrícola para baratear esses custos, elevar a produtividade, intensificar as atividades nas áreas já desmatadas e reduzir a pressão sobre as áreas de vegetação natural. As pastagens representam a maior forma de uso da terra na Amazônia e foram mapeadas pelo TerraClass em 44 milhões de hectares. “É possível, com aumento da produtividade das pastagens e do rebanho, reduzir pela metade a área de pastos e manter o mesmo rebanho”, avalia o pesquisador.

Fonte: Embrapa