Desde o início da Guerra Fria, o domínio espacial tornou-se um dos pilares centrais da soberania nacional. A capacidade de observar a Terra, comunicar-se globalmente e empregar ativos espaciais em apoio à defesa sempre distinguiu as grandes potências. A França compreendeu isso precocemente. Ainda na década de 1960, com a criação do Centre National d’Études Spatiales (CNES) e o lançamento do satélite Astérix em 1965, o país consolidou-se como a terceira nação a colocar um satélite em órbita por meios próprios, atrás apenas dos Estados Unidos e da União Soviética.

Décadas depois, essa tradição se renova com a decisão francesa de desenvolver seu primeiro satélite SAR verdadeiramente soberano, o DESIR (Démonstrateur des Éléments Souverains d’Imagerie Radar). Embora a França já utilizasse imagens SAR oriundas de sistemas europeus – notadamente do satélite SAR-Lupe, da Alemanha, por meio de acordos de compartilhamento –, o novo contexto geopolítico, marcado por conflitos de alta intensidade, disputas híbridas e crescente militarização do espaço, evidenciou os limites da dependência externa. Acesso garantido, contínuo e autônomo a imagens radar passou a ser uma exigência estratégica incontornável.

O movimento francês é particularmente revelador porque ocorre apesar de o país dispor de uma das mais respeitadas indústrias espaciais do mundo. A Thales Alenia Space, joint venture entre a francesa Thales e a italiana Leonardo, é referência global no desenvolvimento de satélites civis e militares. Ainda assim, Paris optou por contratar a Loft Orbital, empresa estrangeira com enorme capacidade técnica em plataformas satelitais modulares, como integradora principal do DESIR. À Thales Alenia Space caberão a carga útil SAR e o segmento terrestre, enquanto a TEKEVER France contribuirá com soluções avançadas de processamento inteligente de dados, explorando inteligência artificial e aprendizado de máquina tanto a bordo quanto em solo.

Essa decisão revela um traço histórico recorrente nas grandes potências: pragmatismo tecnológico. Desde o programa espacial europeu dos anos 1970 – que deu origem à Agência Espacial Europeia (ESA) – até projetos contemporâneos de defesa, a França nunca hesitou em cooperar internacionalmente quando isso significava acelerar resultados, reduzir riscos e agregar valor tecnológico. O DESIR segue exatamente essa lógica: soberania não é sinônimo de isolamento, mas de controle estratégico sobre capacidades críticas.

O investimento previsto no programa – cerca de R$ 300 milhões ao longo de quatro anos – parece modesto quando comparado ao plano mais amplo francês de destinar aproximadamente R$ 26 bilhões ao fortalecimento da soberania e da independência espacial até 2030. Esse valor representa algo em torno de 0,16% do PIB francês, percentual pequeno em termos macroeconômicos, mas enorme em impacto estratégico. Verifica-se um abismo que separa esse esforço daquele realizado pelo Brasil, cujos investimentos espaciais são significativamente mais limitados em escala e continuidade.

Naturalmente, trata-se de realidades muito distintas. O Brasil não dispõe do mesmo orçamento, da mesma densidade industrial nem da mesma tradição de investimento contínuo em defesa espacial. Ainda assim, a principal lição francesa não está no volume de recursos, mas na forma como eles são aplicados. Mesmo com ampla capacidade técnica, tecnológica e financeira, a França foi buscar no exterior aquilo que poderia potencializar sua indústria nacional. Optou por integrar competências já maduras, em vez de insistir indefinidamente em soluções exclusivamente autóctones.

Essa reflexão é particularmente pertinente para o Brasil. Há décadas, o país oscila entre o desejo legítimo de desenvolver tecnologia própria e a dificuldade prática de sustentar programas longos, caros e tecnologicamente complexos. Nesse contexto, parcerias estratégicas tornam-se não uma concessão, mas um instrumento de aceleração do desenvolvimento. O CBERS-6 (China-Brazil Earth Resources Satellite), programado para lançamento em 2028, é um exemplo emblemático dessa abordagem. Fruto de quase 40 anos de cooperação sino-brasileira, o satélite contará com módulo de serviço construído no Brasil, carga útil SAR montada na China e integração final no Centro Espacial de Taiyuan. Trata-se de um arranjo que combina divisão de trabalho, transferência de conhecimento e entrega de um sistema de – espera-se – alta qualidade técnica.

O desafio brasileiro, portanto, não é escolher entre soberania ou cooperação, mas compreender que a soberania contemporânea se constrói pela capacidade de integrar, absorver e dominar tecnologias críticas, ainda que elas tenham origem externa. França, Alemanha, Itália e outras potências espaciais fazem isso há décadas, sem que sua autonomia estratégica seja colocada em dúvida.

Que o Brasil possa aprender com esses exemplos. Em um mundo marcado por novas disputas geopolíticas, pela centralidade da inteligência geoespacial e pela crescente dependência de ativos espaciais para a defesa e o desenvolvimento, insistir indefinidamente em percursos isolados pode significar atraso estratégico. A verdadeira soberania não está apenas em “fazer sozinho”, mas em saber escolher parceiros, acelerar capacidades e entregar resultados concretos às suas Forças Armadas e à sociedade.

* Ivan Oliveira – DSc., Analista de Geointeligência, Consultor Sênior e Titular na BTI Tecnologia & Inteligência, Professor-Adjunto na Escola Superior de Defesa (ESD), e Veterano do Exército (Coronel).


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