Como uma concessionária estatal de energia elétrica conseguiu se tornar lucrativa desenvolvendo geotecnologia
Por Martha Gorman

Houve um tempo, não muito longe, em que já seria um milagre se uma companhia estatal de energia produzisse e consistentemente distribuísse eletricidade. Hoje, a Companhia Paranaense de Energia (COPEL) não apenas usa TI (Tecnologia da Informação) e a internet para aumentar a produtividade, como também apresenta lucros. A utilização de geodados e o amplo uso de geotecnologias têm exercido um papel importante em tornar isto possível.

Para permanecerem competitivas num mercado aberto em crescimento, as utilities (concessionárias de serviços públicos) estão descobrindo que a receita obtida com a cobrança dos clientes é raramente suficiente. A COPEL está entre as primeiras no setor de eletricidade no Brasil a desenvolver fontes alternativas de receita e fez isso lançando produtos desenvolvidos inicialmente para uso interno. Uma estreita parceria com a Construtel provou ser a chave para o sucesso desta estratégia.

O caminho para o sucesso
"Em 1992, a COPEL iniciou experiências com geoprocessamento", relembra Hamilton Figueiredo, gerente da COPEL responsável pelo projeto de desenvolvimento do SIG-GD (Sistema de Informações Geográficas para a Gestão da Distribução). "Nosso objetivo naquela época era primeiramente o gerenciamento da rede de distribução", ele diz, "e o projeto era de domínio dos engenheiros da empresa." Em 1995, um software de GIS se fez necessário. Um processo de concorrência altamente competitivo resultou na aquisição do Vision*, então um produto da SHL, agora parte do conjunto de soluções Autodesk. "Em 1996, nós descobrimos que tínhamos o conhecimento de engenharia, mas não tínhamos pessoal suficiente treinado em Vision* para desenvolver programas", explica Figueiredo. O ano seguinte levou ao que se tornou uma muito bem sucedida parceria com a CONSTRUTEL, que distribui e fornece suporte em Vision* no Brasil.

Pelo fato da COPEL ser uma empresa estatal naquela época, havia poucas fontes de financiamento para canalizar no desenvolvimento de seu GIS. A Construtel, por outro lado, era uma entidade privada e já tinha estabelecido um relacionamento de trabalho de sucesso com o CPqD, então o braço de pesquisa e desenvolvimento da TELEBRÁS, para desenvolver produtos para uso interno e, como objetivo final, venda externa.

Esse modelo atraiu a COPEL. "Dois fatores levaram ao sucesso de nossa parceria com a Construtel", afirma Carlos Zanetti, Superintendente de Tecnologia da Informação da COPEL. "Primeiro, a Construtel era flexível e interessada no investimento. Segundo, o projeto tinha objetivos a longo prazo. Objetivos a curto prazo são obstáculos naturais a parcerias". Ronaldo Nascimento, Diretor da Unidade de Negócios de Sistemas de Informação da Construtel, adiciona a essa lista de fatores de sucesso: "Competência técnica e comercial das equipes; lealdade e transparência no relacionamento; determinação dos acionistas em manter os investimentos; e complementaridade das capacidades e experiências." Ele define a parceria como "muito produtiva. Temos hoje um produto com valor de mercado que não teria sido possível ser desenvolvido de maneira independente por uma das Empresas". E é a isso que se resumem as parcerias de sucesso.

Os relacionamentos da COPEL e do CPqD com a Construtel são inesperadamente diferentes em natureza, contudo. "Com o CPqD nossa parceria começou com o produto (SAGRE) já em desenvolvimento havia algum tempo. Não temos royalties na venda do produto, mas somos os integradores e fazemos a implantação da solução," explica Nascimento. "No caso da COPEL, planejamos e desenvolvemos o produto [SIG-GD] em conjunto, desde o início. Recebemos royalties na venda do produto, somos os integradores e implantamos a solução. O ponto comum é que as equipes da Construtel participam com sua experiência no desenvolvimento e integração de Sistemas de Informação, ao mesmo tempo que conhecem muito bem o negócio dos parceiros (Telecomunicações e Energia)".

pag54 Copel: De empresa pública a lucrativa

Tela do aplicativo SIG-GD (Sistema de Informações Geográficas para a Gestão da Distribuição) desenvolvido na COPEL.

A inovação se acelera
A COPEL foi fundada em 1954 para fornecer eletricidade no Estado do Paraná. Embora sua orientação fosse investir em negócios lucrativos, todos muito freqüentes ao longo dos anos, o monopólio do governo considerou também necessários os empreendimentos de cunho social, que não necessariamente apresentavam resultados financeiros positivos, quando fosse para o bem público. A COPEL construiu os maiores sistemas hidroelétricos definidos no Plano de Eletrificação do Paraná, incluindo Capivari-Cachoeira (1961-1974), Usina Termelétrica de Figueira UTELFA (1963), e a Usina Salto Grande do Iguaçu (1967). Com a operação da Hidrelétrica Foz do Areia (1980), a geração própria da COPEL atingiu 2,9 bilhões de kWh.

Hoje, a COPEL atende diretamente a mais de 2,7 milhões de unidades consumidoras, opera um parque gerador próprio composto de 17 usinas, cuja potência instalada totaliza 4.500 MW e que responde pela produção de 6% de toda eletricidade consumida no Brasil. Possui um sistema de transmissão com mais de 6 mil quilômetros de linhas, 340 subestações e 150 mil quilômetros de linhas de distribuição suficientes para dar 3 voltas em torno da Terra pela linha do equador. A COPEL é a única do setor energético brasileiro com ações cotadas na Bolsa de Nova Iorque.

E isto descreve meramente a concessão elétrica de COPEL. "Com relação a outras áreas, estamos implementando as bases cartográficas de todo o Estado", disse Figueiredo, "e pretendemos utiliza-las também em outras áreas, tais como a de Distribução de Gás, Telecomunicações, Meio-Ambiente e em outros empreendimentos da COPEL". O braço de telecomunicações da firma construiu uma rede de fibra ótica de 1.600 quilômetros no Paraná, com expectativa de se expandir para mais de 2.400Km/40.000 clientes no fim de 2000.

A Construtel, por outro lado, é uma Empresa de Engenharia, especializada em integração de soluções há 25 anos. Em 1991, iniciou as atividades na área de geoprocessamento (GIS). "Nesses período construiu uma experiência importante na implantação, desenvolvimento de aplicações, suporte, conversão de dados, etc.", disse Nascimento. "O interesse da Construtel em investir em sistemas de gerência, desenvolvendo soluções para a realidade latino-americana através do modelo de parceria, tornou-a o sócio ideal para o desafio."

Não é surpresa que o empreendimento conjunto das duas empresas tenha se mostrado tão bem sucedido. Tão bom, de fato, que a Construtel já uniu forças com a Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná), "e além disso estamos com entendimentos avançados para uma parceria com uma empresa da administração municipal", confidencia Nascimento, sem revelar a identidade específica de uma das muitas empresas de serviços públicos municipais do Brasil.

Preparando-se para competir
"O uso inteligente e inovador da Tecnologia da Informação e de dados geoespaciais teve um grande papel em tornar possível a espantosa transformação da COPEL", diz Zanetti, que é responsável pela orquestração das várias iniciativas da empresa em IT. "Nossa parceria com a Construtel permitiu-nos desenvolver as ferramentas das quais precisávamos com rapidez e eficiência, para ter sucesso num mercado altamente competitivo e exigente". O SIG-GD, como passou a ser conhecido o sistema de distribuição de energia elétrica, "nos possibilita trabalhar mais rápido", relata Figueiredo. "Torna possível localizar rapidamente elementos da rede, visualizar circuitos, imprimir mapas da rede, localizar clientes, traçar a conectividade, listar os atributos de cada elemento, localizar falhas de energia, realizar cálculos de simulação elétrica em resumo, nos permite planejar, operar e manter eficientemente nossa extensa rede elétrica".

Do nível de sofisticação desenvolvido para uso interno pela COPEL, faltava apenas um pequeno passo comercializar as ferramentas desenvolvidas internamente e em conjunto com a Construtel para outras utilities. Os primeiros clientes do SIG-GD foram a Espírito Santo Centrais Elétricas -ESCELSA (Vitória, Espírito Santo) e a Empresa Energética do Mato Grosso do Sul ENERSUL (Corumbá, Mato Grosso do Sul). "A ESCELSA já está com 92% de seus consumidores cadastrados no GIS", disse Élcio Tavares, Superintendente de Informática da ESCELSA/ENERSUL. "Já estão em uso os cálculos elétricos da distribuição e, muito importante, o Centro de Operações da Distribuição conta com um sistema do GIS para apoiar as operações. A ENERSUL já está com os clientes das duas maiores cidades do Mato Grosso do Sul no GIS, o que representa aproximadamente 60% dos seus consumidores". Negociações com mais três potenciais clientes estão em andamento, conta Figueiredo.

O MapGuide (Autodesk) está agora sendo integrado ao SIG-GD, adicionando aplicativos de internet que disponibilizam mapas dinâmicos no microcomputador, e permitem aos usuários conectar-se simultaneamente a informações integradas armazenadas em múltiplos servidores de bancos de dados relacionais e de bases de dados geográficos. Hoje, 5 dos 50 veículos de manutenção da rede que operam em Curitiba possuem acesso remoto à internet via trunking às bases de dados do SIG-GD. "Funciona como um teleporto", diz Figueiredo. Os aplicativos MapGuide estão também sendo adicionados ao SIG-GD na ESCELSA e na ENERSUL.

Expansão e diversificação
Com um ambicioso programa de investimentos de R$ 2,1 bilhões para o período 1999/2003 em projetos de geração, transporte e distribuição de energia elétrica, telecomunicações e informática, a COPEL vem se preparando rapidamente com vistas a atuar de forma competitiva num mercado que se apresenta como dos mais concorridos e onde já estão presentes alguns dos mais poderosos gigantes internacionais do setor. Sob esse enfoque, está em curso na empresa um programa de reestruturação interna que visa, a um só tempo, a otimização de recursos, a redução de custos e a maximização de resultados.

Ao marcar presença nas atividades de gás canalizado, telecomunicações, informática e água e saneamento, além de eletricidade, a COPEL assume a condição de multiutility, ou seja, uma empresa de múltiplas vocações na área de serviços públicos. "A COPEL está explorando novos serviços em bases geográficas conhecidas, e explorando serviços que conhece bem em novas bases geográficas", disse Zanetti. A COPEL é a primeira empresa do setor de energia no país a obter autorização da ANATEL para atuar em telecomunicações, tendo se associado à Sercomtel na condição de parceiro estratégico, inclusive como provedora de acesso à internet, como sócia da recém lançada ONDA.

Nas atividades de água e saneamento, a COPEL está presente na Sanepar, integrada a um consórcio de empresas que controla 35% do seu capital. Participa associada a outras empresas públicas e privadas da construção de três hidrelétricas fora do Paraná: as usinas de Machadinho (no rio Pelotas), Dona Francisca (rio Jacuí, Rio Grande do Sul) e Campos Novos (rio Canoas).

Em adição a ser conhecida pelo estudo, dimensionamento, planejamento e gerenciamento de usinas, a COPEL fez um nome na área de sistemas informatizados para operação e controle de instalações elétricas (subestações, linhas de transmissão e redes de distribuição). Parte deste conhecimento é baseada no seu desenvolvimento de ferramentas e funcionalidades de GIS. "Neste momento estamos desenvolvendo sistemas para a empresa paranaense de gás – Compagás, para a nossa unidade de Telecomunicações, e temos um primeiro protótipo implantado numa prefeitura municipal para gerenciamento da iluminação pública, além de outros", disse Zanetti.
Somados à consultoria no Brasil, a COPEL está também oferecendo serviços ao redor do globo, como na China, Malásia, África do Sul, Zimbabwe, Iraque, Argentina, Venezuela, Colômbia e República Dominicana. A empresa também mantém entendimentos com autoridades do setor de energia e aproveitamento de recursos hídricos de diversos outros países, como Vietnã e Nepal. O SIG-GD pode eventualmente aparecer em alguns lugares surpreendentes!

Isto é o que pode acontecer quando o setor público segue de mãos dadas com o setor privado. É pura magia.

Martha Gorman é Diretora do Instituto Internacional da Infra-estrutura. Contatos através do e-mail: marthagorman@att.net.