O GEOBrasil 2000 ficou marcado pelos bons contatos e negócios realizados na feira e a Alcantara Machado já se mobiliza para o evento de 2001
Por Deise Roza

O GEOBrasil 2000 – Congresso e Feira Internacionais da Geoinformação, realizado no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo, de 12 a 16 de junho, foi considerado um sucesso em sua primeira edição. O Congresso apresentou as soluções e aplicações práticas das Geotecnologias, mostrando que a análise geográfica é um moderno instrumento de gestão empresarial, e a Feira contou com a presença das maiores empresas do setor de GEO, reunindo a oferta e a procura das Geotecnologias sob um mesmo teto. Segundo a Alcantara Machado, promotora do evento, o GEOBrasil contou com 694 inscritos em Congresso, cursos e seminários, além de 124 palestrantes, instrutores e debatedores.

Já a feira em seus três dias de duração (14 a 16) reuniu 50 expositores e foi visitada por 2.870 profissionais e compradores especializados.

A primeira edição desse evento deixou satisfeitos e até surpresos alguns expositores. "Não sabíamos exatamente o que esperar, por ser este o primeiro GEOBrasil, mas investimos em nosso estande e estamos satisfeitos. Sabemos que o público que comparece ao evento está realmente interessado e fizemos bons contatos, principalmente na área de utilities", diz Marcos Hiller, na época membro do departamento de marketing da Intergraph.

Para Emerson Zanon Graneman, os pontos altos do Congresso, do qual foi coordenador, foram os debates e as palestras especiais. "Todas as palestras especiais contaram com grande presença de público e tiveram grande repercussão", comemora. Ele acrescenta que 50% do público do Congresso nunca tinha participado de eventos da área. "Estimamos que, na Feira, esse percentual tenha sido ainda maior. A maioria dos visitantes se sentiu atraída pelo formato do GEOBrasil, oferecendo num mesmo local várias opções de solução para o seu problema. Vários expositores relataram que quem visitou seus estandes eram pessoas objetivas que sabiam o que queriam", conta.

Duda Escobar, diretora da Alcantara Machado, promotora do evento, avalia positivamente essa primeira edição. "Pudemos fazer uma primeira análise do mercado: como se comporta, seus interesses mais acentuados, expectativas de visitação, negócios, etc", afirma. Mas ela conta que talvez esperasse um mercado um pouquinho mais organizado. "Talvez até mais ambicioso", acrescenta. "A oportunidade para o GEO, neste momento, é de mostrar o que tem e como suas soluções são ricas e facilitadoras para uma gestão mais fácil, ágil e produtiva. Nossa avaliação é de que o mercado está menos estruturado do que esperávamos. Falta marketing nas empresas", diagnostica. Para Escobar, a grande diferença entre o GEOBrasil 2000 e as primeiras edições dos outros eventos realizados pela Alcântara é que o mercado de GEO já tem uma tradição de 9 anos de realização de Congressos, cursos, seminários e Feiras, enquanto que a maioria dos outros mercados participou com a Alcantara da primeira Feira organizada para eles.

No ano que vem, segundo Granemann, o GEOBrasil será realizado no Centro de Convenções Imigrantes e não mais no Palácio de Convenções do Anhembi, onde aconteceu este ano. "Nesse novo local, as salas do Congresso ficarão ao redor do espaço da Feira, possibilitando um ambiente de maior integração, o que vai ser muito positivo", prevê. "O Centro de Convenções Imigrantes é um espaço novo, mais moderno, com excelente infra-estrutura para eventos de pequeno porte, com 8 mil metros quadrados de estande, em média, e esperamos que o GEOBrasil alcance essa dimensão em quatro anos", completa Duda Escobar.

Ela conta que a Alcantara está fazendo uma acurada análise do evento deste ano, verificando os pontos positivos e negativos, para planejar o próximo. "Tudo será levado em conta, tentaremos tornar o GEOBrasil 2001 ainda mais atrativo e eficiente aos expositores, visitantes e participantes da programação educativa em geral. O que for necessário mudar para ampliar o sucesso institucional, educativo e comercial do evento, será feito", garante. Outra novidade para 2001 é quanto aos cursos. Os planos do coordenador do Congresso são de incluir na programação alguns cursos mais práticos em que, ao final, os alunos, junto com os instrutores, produzam modelos com informações reais. "No ano que vem, em que se iniciam novas gestões municipais, pretendemos também dar mais espaço para o tema prefeitura, e também para a gestão de recursos hídricos ", adianta.

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Expositores da feira gostaram do interesse e objetividade dos visitantes

Feira: vitrine do GEO
"Durante a Feira, concluímos negócios em torno de R$ 300 mil", afirma Eduardo Oliveira, diretor da Santiago & Cintra. Num mercado em que, devido aos altos valores dos produtos e serviços, é difícil fechar negócios num primeiro contato, pode-se ver que a empresa ficou contente com o resultado da Feira. "Fizemos inúmeros contatos e nossa expectativa é de que nos 60 dias após a Feira, e por conta dela, fecharemos mais uns R$ 500 mil", completa. Ele diz que considerou o público da Feira muito qualificado. "Sem dúvida a Santiago & Cintra estará na próxima edição do GEOBrasil. Cremos que esse evento se tornará a principal vitrine do GEO do país", ressalta.

A opinião de outros expositores quanto ao sucesso da Feira não é diferente. "Fizemos excelentes contatos e esperamos fechar negócios num futuro próximo", avalia Edmilson Volpi, da Digibase, representante brasileira da GDT – Geographic Data Technology. Marcos Hiller, então da área de marketing da Sisgraph, espera que a Feira tenha alavancado um volume de negócios próximo a R$ 1 milhão nos próximos três meses. "A Sisgraph voltará na próxima edição", acrescenta ele.

Roberto Coelho, diretor da ByTrade Comercial, ressalta a presença de gente de todo o Brasil no evento e comemora os contatos feitos. "Foram vários bons contatos que certamente gerarão negócios para o futuro", afirma Ana Cristina Hessel, funcionária da empresa, que se surpreendeu com a Feira: "esperava menos gente". Peterson Martinski, diretor da Aerosat Arquitetura, Engenharia e Aerolevantamento, destaca o nível técnico dos compradores. "As pessoas que visitaram nosso estande demonstraram um foco direto no que queriam e interesse em manter a continuidade do contato", conta. "Pelo número de bons contatos que fizemos, com certeza voltaremos no ano que vem", completa .

Algumas empresas escolheram o GEOBrasil para fazer sua estréia em eventos da área. "Fizemos um test drive e gostamos" , afirma Ricardo Zeppellini, representante comercial da Scan System, que trabalha com venda de scanners de alta resolução e nunca havia participado de eventos de GEO. "Nosso estande foi bem visitado e atingimos uma nova faixa de público, que agora sabe que existimos", avalia Zeppellini. A Feira do GEOBrasil foi também a primeira de que a Edinfor Soluções Informáticas participou no País. A empresa é subsidiária da Edinfor, pertencente ao grupo português EDP, e foi fundada dia 01 de janeiro deste ano no Brasil. "É na Feira do GEOBrasil 2000 que estamos nos apresentando ao mercado em geral", afirma Marcelo Martino, gerente do projeto de Geoprocessamento que a empresa desenvolve na CERJ (Companhia Elétrica do Rio de Janeiro).

A Multispectral e o portal Terra fizeram da Feira o cenário para fecharem uma grande parceria. As duas empresas vão disponibilizar serviços de mapas na Internet num investimento de mais de US$ 2 milhões. Os serviços incluirão consulta, localização geográfica e disponibilização do maior acervo cartográfico do país via Web, além de roteamento para quem tem acesso à Internet por celular. Outro benefício será a possibilidade de incluir mapas com a localização das lojas presentes nos canais de e-commerce do Terra. Segundo o portal, para o público corporativo serão disponibilizadas aplicações envolvendo o uso de mapas para localização de serviços, roteamento e planejamento. A Multispectral também fechou no evento uma parceria com a Alcantara Machado Feiras de Negócios, promotora do GEOBrasil, para a disponibilização de mapas, com indicações de localização, nos sites dos vários eventos da empresa. O primeiro deles já estará disponível em agosto para a PHOTOBRAZIL 2000.

Auditório lotado nas palestras especiais
Atraíram atenção maciça as palestras especiais gratuitas. Entre os palestrantes estavam os vice-presidentes da Trimble e da Intergraph, Charlie Armiger e Preetha Pulusani, o Ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, o Diretor do Inpe, Márcio Barbosa, o Presidente da GITA (Geospatial Information & Technology Association), Dan Bowditch e o gerente da Divisão de Cartografia do Ministério da Defesa, Coronel Erbas Soares de Medeiros. Nesta última, realizada na sexta-Feira, dia 16, Medeiros divulgou pela primeira vez em público os principais tópicos do novo projeto de lei do aerolevantamento (sobre isso, veja matéria na página 44).

O Ministro Raul Jungmann falou da utilização das ferramentas de GEO no Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA), órgão do Ministério. As imagens de satélite, por exemplo, são usadas há alguns anos para classificação de propriedades quanto à produção agrícola, e para detectar as fraudes no cadastro de propriedades rurais. O sistema de posicionamento global (GPS) é usado para o recadastramento de imóveis, com grande ganho de produtividade. O Novo Cadastro Rural contará com um sistema de informações geográficas, que está sendo implantado, para ter um acompanhamento da real estrutura fundiária do país e apoiar a tomada de decisões no processo de reforma agrária.

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O Ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungman, anunciou o início das operações da Rede Incra de Bases Comunitárias.

Jungmann lançou nacionalmente no evento a Rede Incra de Bases Comunitárias (RIBaC), uma rede de pontos monitorados diariamente com GPS fornecendo pela Internet informações de correção de coordenadas. "Em parceria com o Ministério Público, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), cartórios, receita federal e afins, estamos também desenvolvendo o Sistema Público de Registro de Terras", divulgou Jungmann. Esse sistema, segundo ele, tem por objetivo ser um cadastro único de propriedades rurais georeferenciadas, com um código universal que servirá para todos os órgãos do governo envolvidos com a questão.

Dan Bowditch, da GITA, Preetha Pulusani, da Intergraph e Charlie Armiger, da Trimble, forneceram em suas palestras um panorama atual da tecnologia geoespacial e das tendências para o futuro, cada um em sua área. Na área de GIS, para eles, a tendência é o surgimento de padrões da indústria, a integração entre sistemas, e a evolução do GIS, passando de um sistema isolado para uma arquitetura componente da tecnologia da informação, tão importante quanto as informações financeiras ou quaisquer outras. O desenvolvimento das Geotecnologias, na opinião geral dos palestrantes, terá um grande impulso na Internet, onde as aplicações estarão ao alcance de todos em qualquer lugar, sem mesmo que a pessoa saiba que está usando GIS.

Outra tendência apontada é a de wireless GIS, ou seja, publicação de mapas e o desenvolvimento de aplicações em celulares, palm tops (pequenos computadores de mão), e outros equipamentos portáteis. Para o presidente da GITA, os bancos de dados relacionais tradicionais vão se tornar espaciais, como por exemplo o Oracle 8i Spatial. Dan Bowditch acrescenta que as imagens de satélite terão cada vez mais resolução e novas aplicações, mas que não acabarão com o aerolevantamento. Segundo os dados de Bowditch, as empresas alvo da GITA – utilities e serviços públicos – que aplicaram bem a tecnologia geoespacial estão tendo economia de 25 a 30% nos gastos com operação e manutenção de suas redes e de 7 a 8% nos gastos com capital. "O mercado mundial de GEO movimentou em 1996 cerca de US$ 6 bilhões, e a previsão para 2000 é de que esse número ultrapasse os US$ 9 bilhões", antecipou.

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As palestras especiais atraíram grande público

"No futuro, poderemos monitorar a performance de um atleta remotamente, colocando um GPS com comunicador em seu tênis", disse Charlie Armiger ao final de sua palestra. Para ele, o GPS cada vez mais se tornará uma ferramenta de utilidades básicas. "O GPS é a primeira referência global para espaço e tempo", declarou. O executivo afirmou que manter o sistema de posicionamento global na pasta do Ministério da Defesa garante sua manutenção em termos de orçamento, e que o fato de ser gratuito é que permitiu sua expansão, levando a concluir que é um bom negócio e continuará assim. Ele apontou as direções do futuro do Global Positioning System (GPS), todas voltadas a aumentar o potencial do sistema, como inclusão de duas novas bandas de freqüência (L5/E5) e ampliação da sensibilidade das antenas receptoras. O executivo prevê que as aplicações futuras da tecnologia serão, entre outras, gerenciamento de patrimônio, automação – com o GPS controlando o posicionamento de máquinas na construção civil, por exemplo – e performance pessoal (roteamento e localização).

Impacto das imagens de alta-resolução
"Algumas aplicações só podem ser realizadas com aerolevantamento", foi o consenso no debate sobre "O Impacto das Imagens de Alta Resolução no Mercado". Segundo os debatedores Fernado Dias, da Esteio e Reinaldo Escada Chohfi, da GeoDesign Internacional, outro fato é que o preço das imagens do IKONOS não é competitivo em relação ao aerolevantamento como se esperava. "O impacto ainda está por vir, com a competição de preços entre satélites", previu Escada. Luis Leonardi, da Intersat, lembrou que um dos concorrentes do satélite IKONOS, o Quickbird, já está previsto para ser lançado em setembro. Na opinião de outro debatedor, o professor da Unesp Antonio Maria G. Tommaselli, o IKONOS é melhor para cobrir áreas pequenas – em que o deslocamento de uma equipe de vôo não compensa – em situações de emergência e levantamentos em escalas menores.

Mercado brasileiro da Geoinformação: esse desconhecido
Para tentar desvendar os números do mercado brasileiro de Geoinformação a organização do Congresso inseriu na programação o debate "O Mercado da Geoinformação no Brasil". A mesa debatedora foi composta por Paulo David, representante da Associação Brasileira das Importadoras de Equipamentos Topográficos, Geodésicos e afins (ABITOPO), Enéas Brum, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Geotecnologias (AGTEC), e Carlos Eduardo Azevedo, dono da Geograph, como representante do setor de GIS. O mediador foi Emerson Zanon Granemann, editor da revista infoGEO.

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Segundo Paulo Davi, para atingir um bom patamar o setor de topografia precisaria de um investimento de 1 a 1,5 bilhão de reais. Ele informou que o setor público ainda é o principal cliente das importadoras de equipamentos de topografia, e acredita que a agricultura de precisão e as aplicações de logística venham a ser mercados potenciais para esses produtos.

Para o presidente da AGTEC, Eneas Brum, a área de cartografia/fotogrametria terá um aumento na média de 20 a 30 empresas por ano com a disponibilidade de novos sistemas de restituição digital que, completos, com hardware e software, estão na faixa de US$ 15 a US$ 18 mil. "Isso é um grande impacto na área", antecipa. No mercado de softwares de GIS, ele acredita que, ao lado do crescimento dos sistemas desktop, a tendência é a migração em direção a sistemas mais especialistas. "Alguns players estão descaracterizando os seus sistemas como sistemas de informações geográficas. A Smallworld por, exemplo, não vende GIS, vende soluções para energia elétrica, para telecomunicações e assim por diante", explicou.

Quanto ao advento das imagens de satélite de alta-resolução, Brumm antevê que teremos no mercado uma grande disponibilidade de dados de média resolução, com 10 metros ou menos. "Isso vai provocar queda de preços e incremento da qualidade desses produtos", afirmou. Enquanto isso, para ele, a área de aerofotogrametria vai concentrar sua atuação na alta-resolução, com escalas de 1:2.000 ou maiores, "como já aconteceu nos EUA". Outro fenômeno que está se revelando no mercado, segundo Brum, é o surgimento de uma demanda muito alta por bases de dados para sistemas de geomarketing e estudos de localização.

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