Congresso reúne em Florianópolis especialistas na área de Cadastro Técnico Multifinalitário de toda a América Latina e ressalta a importância da integração entre Universidade e Mercado
Por Renato Essenfelder

O final de ano está sendo fértil para o setor de eventos especializados em áreas que envolvem Geoinformação. O número é impressionante. Além da 1ª edição da Conferência Orbcomm Solutions, no Rio de Janeiro (veja a página XX), do 1º Congresso de Tecnologia de Informação para Municípios (São Paulo), IV Simpósio Atualização em Sensoriamento Remoto e GIS aplicado à Engenharia Florestal (Curitiba), e o acontecimento do GIS Day nas capitais do ES, RS, MG e São José dos Campos, Florianópolis sediou de 15 a 19 de outubro o 4º Congresso Brasileiro de Cadastro Técnico Multifinalitário (Cobrac 2000). Esta edição do Congresso destacou-se pela integração com o mercado latino-americano, atraindo, paralelamente ao evento, o "2º Encontro de Cadastro Técnico Multifinalitário (CTM) para os países do Mercosul" e o "1º Encontro de CTM para os países do Conesul".

Esta 4ª edição do Congresso reuniu, segundo estimativas oficiais, 520 participantes – em sua maioria de origem acadêmica – em uma iniciativa no sentido de promover e disseminar uma cultura de cadastro técnico no âmbito da América Latina. O patrocínio do evento ficou por conta de instituições como a CAPES, CNPq, CREA-SC e Casan. Além da parte teórica que reuniu quase 200 palestras, apresentações de painéis e debates o Cobrac 2000 também contou com uma feira de expositores com 24 estandes de instituições públicas e empresas privadas. O objetivo da feira, porém, não foi primordialmente o de "fazer negócios", mas sim apresentar algumas importantes marcas do mercado comercial e institucional de GEO brasileiro (Sisgraph, Base Aerofoto, GPS Sul representante da Santiago e Cintra -, Aeroconsult, Intersat, Sulsoft, Universidade Tuiuti do Paraná, Trimbase, Manfra, Engefoto, Divisão de Levantamento do Exército, IBGE e outros) ao público acadêmico.

No dia da solenidade de abertura do evento a principal atração foi a palestra "O desafio do profissional da área de CTM frente à problemática das atribuições profissionais", do presidente do CONFEA Wilson Lang. Na segunda-feira 16, segundo dia do evento, o destaque foi para o palestrante convidado do Uruguai, José Luis Niederer, que falou sobre a cultura de cadastro técnico em seu país. O dia 17 foi oficialmente aberto com a apresentação "Repercuciones de las inversiones del Banco Mundial en Catastro Argentino", dos argentinos Ángel Schenone e Jorge Eduardo Robledo.

No dia 18 o Cobrac contou com a palestra "Interação do cadastro técnico com o registro de imóveis", do doutorando pela UNESP Sérgio Jacomino e no último dia de evento o destaque foi a mesa redonda "O futuro da fotogrametria: hardware, software e o mercado", que contou com a presença de executivos internacionais das duas maiores companhias fabricantes de câmeras para aerofotogrametria no mundo: a Z/I Imaging e a Leica. Durante o congresso foram ministrados também três cursos, nos tópicos de "A Planta de Valores Genéricos e a Modernização do Poder Público", "A Modernização do Levantamento Cadastral," e "Bancos de Dados SQL".

Integração Universidade/Mercado
O coordenador do evento, professor dr. Carlos Loch, acredita que esta 4ª edição do Cobrac superou a terceira, em 1999, não só em tamanho, mas também em qualidade. "Através das fichas de avaliação percebe-se um alto índice de elogios e um grande interesse em apoiar eventos do gênero aqui em Florianópolis", diz. O professor lembra que a cultura na área de Cadastro Técnico Multifinalitário que está sendo criada no Brasil através de iniciativas como o Cobrac já é referência na América Latina, e defende o argumento de que a modernização do poder público brasileiro passa necessariamente pelo CTM.

A tese das aplicações práticas de CTM no dia a dia também é defendida pelo professor da Universidade de Franca Sérgio Jacomino, que prega uma total integração entre o registro imobiliário e o cadastro municipal. "Este é um fenômeno inevitável, a integração entre cadastro e registro de imóveis terá que acontecer no Brasil – a exemplo de outros países do mundo mais cedo ou mais tarde", alerta Jacomino. Com a integração seria possível ao comprador do imóvel saber exatamente onde se situa seu terreno (pois o registro estaria georreferenciado) e se a área que está sendo vendida corresponde precisamente a área que o cliente está comprando (evitando que o consumidor pague um valor superior ao correspondente pelo terreno pretendido).

Partidário de uma maior integração entre a ciência e o mercado, o coordenador do Cobrac ressalta sua "alegria ao ver um dos consultores do BID participando do Congresso e fazendo contatos para melhor assessorar os municípios junto ao programa PNAFM do Ministério da Fazenda e o similar do BNDES". Carlos Loch defende também a importância do papel da Universidade na formação de "profissionais sérios, capazes de levar o conhecimento aos nossos técnicos", ou seja, fazendo a ponte entre o que se produz de novo dentro das instituições de ensino e pesquisa brasileiras e as aplicações práticas do mercado propriamente

pag52 Por uma cultura de cadastro

O presidente da Z/I Imaging, Rudolf Spiller, esteve presente no Cobrac 2000 para falar sobre o futuro da aerofotogrametria.

Feira de Expositores
Várias das 24 empresas presentes na Feira de Expositores do Cobrac 2000 trouxeram novidades para apresentar ao público do evento. A Base Aerofoto, em parceria com a Aerocarta, demonstrou uma metodologia empregada em Belém para a revisão cadastral da cidade através de fotografias aéreas em escala 1:5.000 ampliadas para 1:1.000. Segundo a diretora da Área Social do BNDES, Beatriz Azeredo, o recadastramento de Belém aumentou a arrecadação municipal em 141%. "As vantagens desse método consistem na maior rapidez e economia do trabalho", ressalta a diretora de produção da Base, Fátima Tostes. Já na área de imagens de satélite, a Intersat esteve presente no evento apresentando um novo mosaico composto por 228 imagens Landsat (coletadas entre 1999 e 2000) da Amazônia Legal, produto que demorou cerca de 4 meses para ficar concluído e sai por um preço médio de mil reais.

A Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) aproveitou a ocasião e lançou em seu estande o Atlas do município de Morretes (PR). O produto faz parte de um projeto maior, o "Paraná em Municípios", que pretende mapear e produzir diferentes Atlas de todos os 399 municípios do Estado do Paraná. O projeto foi totalmente executado por alunos e professores de Geografia da UTP e tem fins didáticos. "As crianças e jovens nas escolas estudam com atlas mundiais ou de todo o território brasileiro. Infelizmente, não contam com nenhum material de apoio sobre a geografia mais regional, referente ao próprio município onde vivem", conta o coordenador do projeto, professor Sérgio Mauri Fabri. Já a diretoria de Cartografia e Estatística de Santa Catarina, órgão do Governo do Estado, expôs o mapa atualizado de SC, com quase 30 municípios a mais do que o registrado no mapa anterior, de 1994.

O Futuro da Aerofotogrametria
A Sisgraph – representante da Intergraph e da Z/I Imaging no país também trouxe novidades interessantes ao Cobrac 2000. Uma delas foi a parceria com a editora Abril para lançar um site chamado Portal da Viagem. Nesse site (hospedado em http://www.portaldaviagem.com.br) estão reunidas todas as publicações da área de turismo da editora (incluindo as diversas variantes do popular "Guia 4 Rodas", por exemplo). As informações estão disponíveis de forma totalmente adaptada à Web, isto é, tanto os textos quanto as imagens presentes no site podem ser acessados rapidamente através de mecanismos de busca simplificada. Tendo em mãos o conteúdo cartográfico produzido pela editora ao longo dos últimos anos, o papel da Sisgraph na parceria foi criar um sistema a partir do qual pudessem ser gerados mapas inteligentes online de acordo com a demanda individual de cada usuário.

O software utilizado para a viabilização do projeto foi o GeoMedia Webmap, da Intergraph, customizado pela Sisgraph para atender o Portal da Viagem. Mas o trabalho da representante brasileira foi além da customização do software e incluiu o desenvolvimento de uma nova técnica para possibilitar aos usuários de plataforma Macintosh acesso irrestrito aos serviços de mapeamento inteligente do site. "Como cerca de 10% dos usuários das páginas da editora Abril na Internet utilizam computadores Macintosh, foi uma exigência da editora que nós desenvolvêssemos um sistema específico para esse público, que tem demandas diferentes dos usuários de PCs", explica Luiz Carlos Strazzacappa, gerente de contas da Sisgraph. Para cumprir esse objetivo, a Sisgraph desenvolveu uma tecnologia batizada de "Jpg mapeado", que consiste em um sistema que não requer o uso de plugins (programas adicionais que devem ser incorporados ao navegador do internauta para visualizar efeitos multimídia) e também é capaz de oferecer mapas de acordo com a demanda do usuário (tanto de Macs quanto PCs).

Outra novidade no estande da Sisgraph eram os produtos da joint-venture Z/I Imaging (fundada há cerca de um ano pelas empresas Carl Zeiss e Intergraph), especializada em câmeras fotogramétricas, estações de trabalho, scanners e outros produtos voltados ao mercado de aerofoto. A Sisgraph, como representante oficial da Intergraph no país, está também trabalhando com a marca Z/I no Brasil.

Entrevista: Rudolf Spiller, presidente da Z/I Imaging
Uma das principais personalidades presentes no Cobrac 2000 em Florianópolis foi o presidente da Z/I Imaging, Rudolf Spiller, que foi a convite da Sisgraph participar do debate "O futuro da fotogrametria: Hardware, Software e o Mercado". Spiller falou dos projetos de sensores digitais para aviões em andamento na Z/I e ainda contou alguns detalhes sobre a sua empresa em entrevista exclusiva à revista infoGEO.

Pouco mais de um ano após o anúncio da joint-venture Z/I Imaging, o sr. acredita que essa parceria satisfez plenamente as expectativas tanto da Carl Zeiss quanto da Intergraph?
Hoje somos a empresa número 1 no mercado de fotogrametria, então posso dizer que a Z/I satisfez completamente tanto as expectativas da Carl Zeiss quanto Intergraph. No nível cultural, podemos dizer que o processo de integração entre a companhia sediada nos Estados Unidos (Intergraph) e a européia Carl Zeiss superou todas as expectativas. Para vencer os obstáculos culturais nós enviamos trabalhadores de uma companhia à outra, para que todos pudessem ver que havia pessoas reais por trás da joint-venture Z/I. A integração não só entre as companhias, mas no nível humano – entre os profissionais americanos e alemães foi fundamental para garantir o sucesso da Z/I no mercado.

Qual foi a receita da companhia neste primeiro ano de funcionamento?
Como não somos uma companhia de capital aberto, não estamos publicando dados relativos à receita ou faturamento da empresa, mas posso afirmar que os planos da Z/I para o nosso primeiro ano de funcionamento eram de um acréscimo em mais de 10% sobre nosso orçamento inicial. Sobre a nossa receita global, estamos próximos da marca de 50 milhões de dólares.

Como a companhia avalia o mercado brasileiro?
O Brasil é sem dúvidas nosso mercado mais importante dentro da América do Sul, e a Sisgraph, nossa revendedora no Brasil, tem se mostrado um parceiro muito forte, com uma longa história de representação da Intergraph. Considero importante na nossa parceria com a Sisgraph no Brasil o fato de haver um acompanhamento junto aos clientes mesmo após a venda dos produtos. Nesse mercado há muitas empresas que vendem o equipamento e depois simplesmente esquecem do cliente. Nós da Z/I e também a equipe da Sisgraph não pensamos assim, procuramos construir uma relação de longo prazo com nossos clientes.

O que faz a diferença a respeito da Z/I sobre seus concorrentes?
Eu vejo dois diferenciais fundamentais na Z/I: o primeiro é a nossa filosofia de "integrated workflow" (fluxo de trabalho integrado) desde a aquisição de imagens até o produto final. Apenas uma ouduas companhias ao redor do mundo são capazes de aplicar essa filosofia, mas acredito que nossa maneira de viabilizar o trabalho integrado, de enxergar todas as etapas da fotogrametria como um só processo, ainda é a mais eficiente, a mais integrada e simples de usar. Outro diferencial é a nossa preocupação com o consumidor não apenas no estágio da venda de produtos ou equipamentos, mas no acompanhamento posterior e nos cursos de treinamento.

Quantas pessoas trabalham hoje na empresa? Em quantos países ela se faz presente através de representações comerciais?
Antes de tudo é preciso lembrar que nós não estamos fabricando nossos sistemas, estamos comprando-os de outras companhias. Quando precisamos de equipamentos óticos de precisão, por exemplo, recorremos à Carl Zeiss para obtê-los. Nosso trabalho na Z/I é o de promover a integração de diversos sistemas para facilitar o trabalho do usuário final. Mas se não contarmos as pessoas que trabalham na linha de montagem da Carl Zeiss ou da Intergraph, chegamos ao número de 135 trabalhando conosco ao redor do mundo. Podemos dividir esse número em cerca de 45% operando na Alemanha, 40% nos Estados Unidos e outros 15% distribuídos ao redor do mundo. Atualmente contamos com representação comercial em 125 países do mundo, sendo que o Brasil é um dos países onde temos um dos nossos melhores representantes.

Qual o futuro da aerofotogrametria agora, considerando o advento dos satélites comerciais de alta resolução?
Estamos impressionados e bastante felizes com o advento dos satélites comerciais de alta resolução e a qualidade das imagens de sensores como o do IKONOS. Isso porque estamos vendendo vários produtos para o processamento das imagens IKONOS, o que nos beneficia também. Por outro lado, como as imagens de satélite só satisfazem algumas aplicações que necessitem de menos rapidez, resolução e precisão de imagem, o volume de câmeras da Z/I sendo comercializado não diminuiu.

Quanto ao futuro do aerolevantamento, creio que as câmeras digitais logo substituirão as atuais. O que posso dizer para tranqüilizar o mercado de aerofotogrametria é que essa modalidade de obtenção de imagens não irá morrer ou dar lugar aos satélites. As câmeras digitais são um processo natural na evolução da tecnologia, estamos desenvolvendo um protótipo na Z/I que terá muito mais recursos do que os modelos atuais, e com a vantagem de produzir imagens diretamente em meio digital, poupando gastos com filmes e revelação. Esperamos ter nosso projeto de câmera digital concluído em meados do próximo ano, quando se poderá debater com mais propriedade esses novos recursos tecnológicos.