O satélite Ikonos inaugurou uma nova fase do sensoriamento remoto, oferecendo informações precisas obtidas com agilidade e segurança

Por Marjorie Xavier

Apontada como um dos mais importantes avanços científicos da atualidade, a técnica que utiliza imagens de satélite para o levantamento de informações georrefenciadas de uso cartográfico (mapas) deu um grande salto com o lançamento do Ikonos. Considerado atualmente o melhor equipamento não-militar de alta definição para a leitura da superfície terrestre em órbita no planeta Terra, o satélite Ikonos foi lançado em setembro de 1999 pela empresa americana Space Imaging, ao custo total de US$ 750 milhões. Até então, os americanos só utilizavam tecnologia semelhante para uso militar. Entre outros clientes, a Space Imaging tem o próprio Ministério da Defesa dos Estados Unidos, além de empresas agrícolas, indústrias e prefeituras municipais de vários países, inclusive do Brasil.

As imagens geradas pelo Ikonos têm uma resolução de até um metro quadrado. Apesar de o equipamento atender a praticamente todas as aplicações cartográficas, de mapeamentos urbanos até levantamentos ambientais, sabe-se que a Space Imaging prepara o lançamento de mais dois satélites com uma resolução de menos de 50 centímetros, o que deve ocorrer daqui a dois anos.

A multinacional Space Imaging tem sede em Denver, estado do Colorado, Estados Unidos, e reúne alguns dos maiores grupos investidores em tecnologia do mundo, como a Lockheed Martin, a Raytheon, a Mitsubishi e a Huyndai Space, entre outros. Os investimentos neste satélite já chegam a mais de US$1,5 bilhão. A Space Imaging dispõe de estações de recepção na Europa, Emirados Árabes, América do Norte e África do Norte. A empresa deve instalar em breve uma nova antena receptora na América Latina, possivelmente no Brasil. "O estabelecimento dessa antena receptora é reflexo da estratégia de aperfeiçoar nosso canal de distribuição no Brasil", comenta Nisso Cohen, vice-presidente da Space Imaging para a América Latina.

Canal de distribuição
Recentemente, a Space Imaging anunciou ter reestruturado seu canal regional de vendas no Brasil, assinando contratos com quatro companhias brasileiras: Engesat, GisPlan, Infostrata e Threetek. A primeira tem sede em Curitiba (PR), enquanto as outras estão no Rio de Janeiro (RJ). "Estes acordos de parcerias significaram o primeiro passo formal para o estabelecimento de uma Afiliada Regional da Space Imaging no Brasil", diz Maurício Meira, executivo da Space Imaging do Brasil. Esta Afiliada deverá organizar a coleta e distribuição de imagens e produtos do Ikonos.

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Imagem Ikonos da Praça do Pedágio na Ponte Rio-Niterói

Conforme anunciou a multinacional, os contratos de parcerias ainda têm a vantagem de concentrar esforços de vendas e marketing em quatro distribuidores mais fortes. Com isso, a Space Imaging busca diminuir a concorrência interna e se comunicar de forma mais clara com seus clientes de todo o Brasil. O fato de as quatro empresas brasileiras já terem consolidada sua posição no mercado de sensoriamento remoto, cada qual com sua especialidade e especificidade, torna o ambiente ideal para novos negócios a partir de projetos derivados de imagens de alta resolução.

"Fortalecemos nosso relacionamento com quatro das mais tecnologicamente avançadas e inovadoras companhias de informação geográfica da América do Sul", diz Cohen. "Cada companhia tem experiência em uma ampla gama de aplicativos de dados geográficos, além de conhecimento especializado em pelo menos um dos nossos setores básicos de mercado. Juntos, aumentaremos a demanda pelas imagens geradas pelo satélite Ikonos e colocaremos à disposição de uma faixa mais ampla da população as várias aplicações e vantagens de utilização das imagens de satélite de alta resolução."

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A paranaense EngeSat fornece imagens do Ikonos a uma ampla variedade de clientes, inclusive a governos estaduais e municipais. A empresa oferece dados gerados pelo satélite e é reconhecida pela distribuição de imagens para grandes projetos ambientais. A EngeSat também distribui os produtos do satélite indiano IRS, que apresenta resolução espacial de 5 metros (confira Box).

A Gisplan é uma companhia que presta grandes serviços cartográficos para clientes governamentais e militares. Um projeto de avaliação dos dados estereoscópicos (3D) do Ikonos para mapeamento sistemático já se encontra em fase adiantada de avaliação pela Divisão de Serviços Geográficos (DSG) do Exército e pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). "O satélite Ikonos é hoje o padrão em termos de imagens de alta resolução. Além do pioneirismo, ele guarda características sem igual nos concorrentes, como por exemplo estereoscopia numa única passagem", afirma Antônio Machado e Silva, diretor executivo da Gisplan.

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Imagem Ikonos de Guaribas no Piauí

A Infostrata tem uma sólida experiência no desenvolvimento de aplicativos baseados em imagens para Internet e Intranet, além de dispor de amplos conhecimentos nas áreas de mineração, transportes e infra-estrutura. Suas aplicações são criadas e customizadas para atender a necessidades específicas de cada cliente. Com base nas imagens do Ikonos, a Infostrata realizou para a Vale do Rio Doce o mapeamento de um trecho de 1.000 quilômetros de ferrovias.

A Threetek é líder no Brasil na área de desenvolvimento de aplicativos de imagens para a indústria de petróleo e gás. A empresa ainda se destaca no desenvolvimento de soluções municipais, principalmente pelo fato de a imagem de satélite ter como característica a rapidez de obtenção aliada a custo-benefício satisfatório, tornando o produto ideal para prefeituras. A Threetek também é voltada aos serviços para companhias energéticas e mapeamento das condições ambientais. "A grande diferença do uso do Ikonos é a sua possibilidade maior de detalhamento da superfície terrestre", fala João Carlos Vassalo, presidente da Threetek.

Além do Brasil, os revendedores sul-americanos da Space Imaging estão localizados na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru e Venezuela. Atualmente, existem Afiliadas Regionais em Seul, Coréia (Space Imaging da Ásia); Tóquio, Japão (Space Imaging do Japão); Bangcoc, Tailândia (Space Imaging do Sudeste da Ásia); Munique, Alemanha (Space Imaging da Europa); Ancara, Turquia (Space Imaging da Eurásia); e Dubai, Emirados Árabes Unidos (Space Imaging do Oriente Médio).

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Imagem Ikonos da Estrada de Ferro Centro-Atlântico em Minas Gerais

Vantagens da alta resolução
O satélite mantém uma órbita permanente ao redor do planeta, passando no mesmo local em momentos pré-programados. No Brasil, a passagem do Ikonos se dá sempre a partir das 10:30 horas, horário de Brasília. O Ikonos proporciona imagens para sensoriamento remoto e geoprocessamento, captando detalhes do solo em cenas de até 110 quilômetros quadrados.

O Ikonos tem a vantagem de estar operando na órbita para o qual foi projetado. Isto permite que apresente uma estabilidade que reflete diretamente na qualidade da imagem. "O resultado disso é que de 32 produtos de imagem definidos pela NIMA (agência de mapeamento americana) o Ikonos é certificado em 31", explica o Antonio Machado, da Gisplan. "As imagens Ikonos são uma realidade no segmento de mapeamento. Elas são um poderoso instrumento para suprir, com alta qualidade, diga-se de passagem, nossas carências em termos de mapeamento e atualização do mapeamento nas escalas de 1:50.000 a 1:5.000", completa o executivo da Gisplan, destacando que se as imagens do Ikonos podem ser utilizadas em mapeamento topográfico, PEC classe A, podem ser usadas em um sem número de outras aplicações.

O uso da geoinformação ganhou destaque há poucos anos, com a disponibilidade de computadores melhores, de softwares mais precisos e poderosos para trabalhar as imagens e os dados agregados, como também as próprias imagens de satélite. Vale lembrar que até recentemente imagens dessa qualidade só estavam disponíveis ao Pentágono, nos Estados Unidos, e aos militares de outros países desenvolvidos.

Os satélites tradicionais de sensoriamento remoto com resoluções espaciais de 10 a 15 metros podem fazer a identificação dos quarteirões de uma cidade e dos seus principais edifícios. Já os mais modernos, como o Ikonos, são capazes de mostrar alguns detalhes das edificações. São grandes usuários dessas tecnologias, ou melhor, geotecnologias, todas as instituições públicas ou privadas que precisam de dados com urgência, como é o caso das empresas de telefonia, de distribuição de eletricidade e gás, e ainda de prefeituras para aplicações voltadas à modernização da gestão municipal

Custo-benefício
Para minimizar os custos e diminuir o tempo de execução dos mapeamentos, o uso de imagens de satélite de alta resolução ganha cada vez mais espaço. A exigência de manutenção permanente das bases cartográficas exige grande rapidez em coletar, tratar e disponibilizar os dados coletados para que se possa efetuar a atualização cadastral. O valor final dos produtos gerados pelo sensor de alta resolução, principalmente se comparados aos gerados pela tradicional aerofotogrametria, também conta a favor do Ikonos, assim como a alta periodicidade de aquisição de imagens e repetitividade de observações, rápida disponibilização para o usuário, cobertura simultânea de imagens pancromáticas e multiespectrais e estereoscopia com precisão. Enfim, informações precisas obtidas com agilidade e segurança.

É claro que se o objetivo do emprego de imagens de satélite for a obtenção de mapa temático que mostre a distribuição do uso atual do solo, por exemplo, as imagens com menor resolução cumprem perfeitamente a função, tanto técnica quanto economicamente. Mas como a principal característica do Ikonos é a alta resolução espacial, capaz de identificar objetos como ruas, casas e automóveis, o satélite da Space Imaging inaugurou uma nova era com múltiplas possibilidades de aplicações de imagens orbitais.

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Resultado da fusão de imagem LandSat, 5,4,3+Pan, 15m de resolução, com imagem IRS pancromática, 5m de resolução. As imagens que resultaram neste produto final, 5m de resolução, são do Chile

Média resolução

A Space Imaging também opera o satélite Indian Remote Sensing (IRS), que oferece cenas pancromáticas de média resolução – 5 metros. No Brasil, os produtos do IRS são comercializados pelos distribuidores da multinacional. Este satélite tem resolução de 5 metros e possibilidade de fusão com as multispectrais do LandSat para obter dados coloridos de 5 metros de resolução. "É um satélite que gera imagens PAN (tons de cinza), mas é possível a fusão desta com bandas multispectrais de outros sensores, como o LandSat 7 ou 5", explica Sérgio Pena, da EngeSat.