A representação do complexo mundo real pelos nossos limitados olhos

No desafio da integração entre a tecnologia da informação e geociências (TI+GEO), o dado geográfico fica na berlinda. O entendimento mais completo sobre este dado demanda conhecimentos das ambas as áreas. Apesar de importantes, talvez hoje a principal dificuldade não esteja nas definições de matricial/vetorial ou escala e precisão, mas sim no entendimento da epistemologia da representação do mundo por meio de dados geográficos. No sentido de contribuir nesta direção, ressaltam-se alguns pontos sobre a limitação de tal representação.

Diversos filósofos se debruçaram sobre o tema da percepção humana, onde um dos trabalhos mais importantes foi do Immanuel Kant, que define que o processo de percepção não é passivo, mas um processo de construção de uma experiência, acrescentando memórias, afeto, raciocínio e outras qualidades subjetivas ao indivíduo. Kant e outros pensadores, cada um em sua linha e contemporaneidade, definem que percebemos e entendemos o mundo não como ele é, mas o reconhecemos por meio das qualidades e limitações de nossas percepções. Sendo assim, quando duas pessoas observam um mesmo objeto, a percepção pode não ser equivalente e muito menos será completa.

Mas o que essa conversa filosófica tem a ver com o dado geográfico? Tudo, pois o dado geográfico é uma interpretação do mundo real dotada nas limitações da percepção humana. Em complemento dessa argumentação, o livro Spatial Data Quality leva no prefácio a seguinte colocação: “o dado espacial precisa ser necessariamente aproximado, já que é impossível capturar toda a infinita complexidade da superfície da Terra sobre qualquer forma, seja como um mapa, um globo, um banco de dados digital, ou uma narrativa”. Essa limitação não vem somente da tecnologia que é aplicada no levantamento, mas também da nossa capacidade de perceber a completa complexidade.

Cabe ressaltar que o dado geográfico é um dado técnico, provido de metodologias definidas para sua criação, representação e manipulação. Uma equipe especializada pode se sentar em uma mesa e definir como será tecnicamente a representação de uma área de estudo por meio de dados geográficos. Por outro lado é incorreto pensar que o dado geográfico seja totalmente cartesiano. O livro supracitado afirma ainda no seu prefácio: “muitos tipos de dados espaciais envolvem julgamento humano”. Para ficarmos em um exemplo: dois profissionais igualmente experientes em mapeamento de vegetação podem não chegar ao consenso na definição das bordas de duas classes de vegetação ou mesmo em qual classe uma região se encaixa. Reforça-se assim a influência da percepção do homem sobre o dado geográfico que ele constrói.

Apesar de não capturarmos toda a complexidade da superfície da Terra, podemos capturar uma grandeza de informações que torne a base de dados complexa. “A criação de um mapa ou um banco de dados espaciais é um processo longo e complexo, envolvendo muitos estágios de aquisição, interpretação, análise e generalização” – transcorre ainda no prefácio do Spatial Data Quality. É, portanto, pertinente que se documente tecnicamente este processo de criação.

Assim, considera-se para melhor entendimento sobre o dado geográfico:

• Ele não representa toda a complexidade do mundo real, mas é complexo; e

• Duas representações do mesmo elemento da superfície da Terra podem não ser iguais, pois estas representações estão de acordo com
diferentes percepções.

A citar algumas consequências deste cenário: um produtor de dados não pode gerar uma base para atender qualquer aplicação de qualquer usuário, por outro lado o usuário deve definir o que ele precisa; dados geográficos relacionados nem sempre convergem ou geograficamente ou em atributos, devido aos diferentes processos de criação; uma documentação falha sobre o processo de criação do dado restringe a avaliação de como se dá a representação e quais são as limitações. Moral da história: tal como é o criador, é sua criatura.

José Dados geoespaciais na berlindaJosé Augusto Sapienza Ramos

Coordenador Acadêmico do Sistema Labgis. Professor do Departamento de Geologia Aplicada da Faculdade de Geologia da UERJ. Formação na área de Engenharia e Ciência da Computação, atua há mais de 12 anos na área de Geotecnologias com pesquisa, ensino e consultoria

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