A conversa de bar se amplia para os grupos de mensagens e ganha reforço por todas as mídias sociais:

“Nossa! Nunca choveu tanto em Belo Horizonte, a chuva está destruindo tudo, pessoas estão morrendo e o dano financeiro é altíssimo”

Essa percepção de assombro não aconteceria em uma cidade que conhece suas características climáticas, geomorfológicas, hidrográficas, urbanísticas e demográficas.

Em pleno 2020, é constrangedor que as pessoas, principalmente os gestores e responsáveis técnicos de áreas relacionadas, ainda se digam surpresas pelo volume de chuvas e pelas enchentes, deslizamentos, danos materiais e, o pior, perda de vidas.

O que pode ser mudado? A mídia, os gestores públicos e a população devem se fazer essa pergunta.

O que não pode ser mudado já sabemos: são os aspectos naturais, é o ciclo da chuva, as formas do relevo e a presença dos rios. Na verdade, grande parte dos problemas urbanos ligados a inundações e enchentes ocorrem quando os padrões de ocupações e planejamento urbano não respeitam as características naturais do espaço geográfico.

Bases de dados e informações temos aos montes. Não nos falta embasamento para compreender os fenômenos e descrever os processos. É um erro, portanto, não dirigir os esforços para a resolução estrutural do problema.

Resiliência

A incapacidade de lidar com um fenômeno sazonal, recorrente, revela a fragilidade de uma cidade e sua comunidade. É evidência de falta de resiliência – o que pode levar a estados de crise e calamidade constantes.

Aliás, não é o que temos observado em muitas cidades brasileiras? Tragédias, calamidades, epidemias, sensação crescente de insegurança…

Umas das principais características de uma cidade inteligente é que ela seja resiliente.

Mas o que são cidades resilientes? São cidades capazes de aguentar eventos severos.

Resiliência, no dicionário, significa:

“propriedade que algumas estruturas apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação”

A resiliência de uma cidade ou de um povo tem a ver com sua capacidade de suportar as crises com mínimas perdas. Quando falamos de chuvas, por exemplo, a capacidade de aguentar as consequências de um evento muito acima da média histórica e, na sequência, voltar ao estado normal de fluxos da cidade com mínimas perdas é uma característica da resiliência.

Exemplos de cidades resilientes e inteligentes

Existem dezenas de exemplos no mundo, onde outros fenômenos naturais atuam, tais como furacão, terremotos, tornados, nevascas e até mesmo enchentes, mas cujo impacto é mínimo ou quase zero, pois um planejamento adequado foi feito para o advento desse fenômeno.

Em Toronto, no Canadá, quando chega o inverno, a cidade passa a funcionar no subterrâneo, pois é quase impossível andar em vias abertas, devido a nevascas e o frio extremo. Os canadenses convivem com suas características climáticas, não as culpam.

Agora vamos fazer um comparativo de eventos ainda mais graves: os terremotos do Haiti, de 2010, e do Japão, de 2011.

No Haiti, em 2010, cidades com pouco ou nenhum planejamento para suportar um terremoto de 7 pontos na escala Richter sofreram consequências devastadoras, como as cerca de 200 mil mortes – mais de 1% da população de todo o país. O Haiti até hoje tenta se recuperar desse evento traumático.

No Japão, em 2011, um terremoto de 9.1 na escala Richter, que causou também uma tsunami devastadora e um gravíssimo acidente em uma usina nuclear, foi um dos eventos naturais mais terríveis e mortais já enfrentados pela preparadíssima população japonesa. Esse terremoto devastador matou quase 20 mil pessoas (menos de 0,02% da população do Japão). Esse evento também teve um impacto terrível na vida dos japoneses, mas nada comparado ao que aconteceu com os haitianos, pois houve muito mais planejamento e investimento em um caso do que no outro.

Para citar um exemplo brasileiro, Curitiba é reconhecida nacionalmente e internacionalmente pelo seu projeto de prevenção de enchentes da década de 1970, com a criação de parques lineares ao longo das margens dos rios.

Problemas recorrentes e erros recorrentes

É óbvio que para que uma cidade seja resiliente a fenômenos naturais extremos, a solução não será de curto prazo e com pouco investimento.

Vamos voltar ao exemplo do que aconteceu em BH nessas últimas semanas do mês de janeiro de 2020. As áreas alagadas são basicamente as mesmas áreas que já vêm sendo alagadas há décadas. A intensidade da chuva se soma à frequência e à continuidade. Tão importante quanto saber o volume de uma determina chuva é compreender os impactos da chuva por vários dias. A alta impermeabilização do solo pelo modelo de urbanização, se junta à saturação do solo, por já estar chovendo há tantos dias. Sem contar que não são respeitados os leitos de inundação, com as marcas das cheias e a criação das planícies, que foram modificados pelas construções que canalizaram e “enterraram” os rios.

Quando escuto que a Av. Prudente de Moraes está inundada, ou a Av. Silva lobo e a Av. Tereza Cristina, para citar apenas alguns exemplos, penso que, na verdade, são os rios tentando “ressurgir”. Afinal, essas inundações são resultado da carga de captação das bacias hidrográficas a que esses rios pertencem, dando uma resposta de vazão às águas que caíram nas suas cabeceiras.

Mas por que a água “sobe tão rápido”? Ora, o rio não segue mais seu curso natural, foi tampado, encurtado e não há infiltração de água nas vertentes. Toda a água chega mais rápido e mais forte, mas a água e a chuva só estão buscando o seu “leito natural”.

Uma avenida (que antes era um rio) que tem todo o seu asfalto arrancado pelas ações da chuva não pode ter como solução simplista o recapeamento da via com um novo asfalto “frágil” e uma boa pintura. O problema é estrutural, complexo e de longo prazo. É preciso encarar que o rio que existe ali sempre irá pulsar, latente, esperando uma nova chuva para ressurgir.

O que fazer?

É preciso ocupar melhor as áreas urbanas e fazer isso de maneira sustentável, sempre atenta ao tripé: ambientalmente correto, socialmente justo e financeiramente viável.

A resiliência passa por pensar as cidades do futuro, de forma estratégica, preditiva, preventiva. As soluções para uma Belo Horizonte, ou qualquer outra cidade brasileira que sofra com enchentes, não será de poucos meses, com obras de maquiagem. É preciso pensar no longo prazo.

Qual cidade queremos para 2030 ou 2050? A solução passa por muitos estudos, muitas obras de alta qualidade e complexidade. Passa também por uma reestruturação do plano diretor, para que este seja efetivo, inovador. Será necessário fazer uma revisão da política histórica de transformar rios em avenidas sanitárias, uma busca por padrões de construção mais adequados, respeitando as lições que a natureza nos dá. E será preciso, é claro, fazer tudo isso com foco nas pessoas, nos cidadãos, lembrando de referenciais teóricos importantes que já temos, como os objetivos do desenvolvimento sustentável, da ONU, com um lema que nunca fez tanto sentido como agora:

“Avançar, sem deixar ninguém para trás”

* Julio Ribeiro. Geógrafo e atualmente CEO da Hubse Tecnologia da informação. Possui mais de 20 anos de experiencia profissional e acadêmica com tecnologia da informação aplicada a decisões estratégicas. Mestre em tratamento da informação espacial, professor da FGV, PUC e Facens. Nessa última instituição leciona no MBA de SmartCity. Coordenou o projeto de Inovação do governo do Estado de São Paulo para Cidades Inteligentes aplicado no município de Monteiro Lobato-SP. Projeto que foi premiado nacionalmente e internacionalmente.

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Imagem de capa: Pixabay