“Em Barueri, o drone já resolve o último quilômetro em minutos. A pergunta que sobra é: quem está preparado para operar esse sistema todos os dias?”

O last mile é um velho conhecido de quem trabalha com logística. É justamente na etapa final da entrega que trânsito, dificuldade de acesso, custos e pressão por prazos podem comprometer uma operação que, até ali, parecia perfeitamente planejada. Agora, parte desse percurso começa a ganhar uma nova dimensão: a vertical.

Barueri, na Grande São Paulo, é um bom exemplo do que está mudando. Em junho de 2026, o iFood iniciou uma operação com drones para atender condomínios residenciais da região. Segundo a empresa, quase 50% dos pedidos destinados à área atendida enfrentavam recusa de entregadores devido à dificuldade de acesso e ao tempo de espera.

A solução encontrada não foi substituir pessoas por drones. Foi combinar recursos: mensageiro ou robô autônomo na coleta, drone em um trecho aéreo de 3,6 km realizado em cerca de cinco minutos e entregador na etapa final. É logística multimodal acontecendo na prática (IFOOD, 2026).

No mesmo período, a regulamentação brasileira também avançou. O RBAC nº 100, da Anac, passou a organizar as operações de aeronaves não tripuladas a partir do risco operacional, nas categorias aberta, específica e certificada (ANAC, 2026).

Drones mais avançados, novas operações, novas regras. E quem trabalha nesse mercado, está acompanhando essa transformação?

Uma revisão científica publicada em 2026 ajuda a dimensionar a questão. Em uma busca sobre voos não tripulados, os pesquisadores encontraram mais de 97 mil documentos publicados neste século. Quando acrescentaram fatores humanos à pesquisa, encontraram 959, menos de 1% (MURRAY; WILD, 2026).

Talvez tenhamos dedicado muito tempo a entender como fazer drones voarem melhor e pouco tempo a discutir como preparar quem precisa trabalhar com eles.

Soft Skills

E é nesse ponto que as soft skills deixam de parecer um complemento. Em pesquisa sobre competências profissionais em UAS, 81% dos participantes colocaram Segurança e Qualidade entre as prioridades, acima da própria proficiência técnica e mecânica, escolhida por 64% (LERCEL; HUPY, 2020).

Formação contínua para profissionais que atuam com drones na logística

Na logística com drones, isso começa por um mindset de segurança inegociável. Cumprir prazo e SLA é importante, claro. Mas reconhecer que uma missão não deve decolar também é uma decisão profissional.

Vem junto a consciência situacional. O olhar não pode estar apenas na aeronave. É preciso considerar carga, clima, bateria, conectividade, espaço aéreo, pessoas e o restante da operação logística. E quando o sistema recomenda continuar mas alguma coisa no cenário diz o contrário, entra o julgamento crítico: interpretar sinais, antecipar consequências e decidir.

O profissional também precisa saber se comunicar em ambientes nos quais informações circulam entre sistemas, centro de controle, manutenção e equipes em solo. Precisa ter visão sistêmica, porque o melhor voo não garante a melhor entrega. Precisa lidar com questões de ética, privacidade e responsabilidade, além de manter clareza para decidir quando alguma coisa sai do planejado. Estudos com pilotos civis apontam justamente comunicação, trabalho em equipe, gestão do estresse, comportamento responsável e consciência de riscos entre as competências relevantes para esse trabalho (SCHMIDT et al., 2022).

Mas há uma competência que, para mim, atravessa todas as outras: aprender continuamente.

Schmidt e colaboradores avaliaram 38 competências com 88 pilotos civis profissionais. Vinte e uma foram direcionadas para treinamento recorrente, contra 16 para treinamento inicial. O estudo chama atenção para um aspecto importante: executar o trabalho diariamente não é suficiente para manter todas as competências necessárias, especialmente aquelas utilizadas em situações críticas e pouco frequentes (SCHMIDT et al., 2022).

Em operações cada vez mais automatizadas, desenvolver competências continuamente torna-se parte da própria segurança e eficiência logística

É aqui que logística e educação profissional se encontram. Se aeronaves, inteligência artificial, sistemas e regulamentações continuarão mudando, não faz sentido imaginar a formação como algo que termina antes de o profissional começar a trabalhar.

A proposta de formação por competências e educação continuada do Senac conversa diretamente com esse desafio: aproximar conhecimento e prática e criar oportunidades para que o profissional continue se desenvolvendo ao longo da carreira.

Para esse mercado, treinamento inicial continuará sendo necessário. Mas simulações, atualização, upskilling, reskilling e aprendizagem a partir da própria experiência terão cada vez mais espaço.

Certificação habilita. Desenvolvimento contínuo sustenta a competência.

No fim, quanto mais autônomo se torna o drone, menos o profissional precisa apenas pilotar. Precisa interpretar, comunicar, aprender e decidir. Talvez a vantagem competitiva da logística que está surgindo não esteja em ter a tecnologia que aprende mais rápido. Pode estar em formar pessoas capazes de aprender com ela.

E na sua organização: vocês estão apenas habilitando profissionais ou desenvolvendo competências para uma operação que continuará mudando?

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Com informações do Senac-SP
Imagens elaboradas pelo autor com ferramenta de IA (2026)


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