Novas tecnologias despontam como uma das soluções para um dos principais gargalos da construção civil: os acidentes de trabalho. De 2016 a 2025, o setor teve 122. 455 ocorrências, com alta taxa de letalidade, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego. A expectativa é que novas ferramentas, como os drones, reduzam esses indicadores, ao afastar os trabalhadores de situações potencialmente perigosas.

Para Rodrigo Rattes, engenheiro responsável pelo projeto AeroVision, da Emccamp Residencial, os drones aumentam a segurança, pois substituem o trabalhador em tarefas mais complicadas, como subir em telhados e fachadas ou utilizar andaimes e balancins.

“Hoje nossa inspeção visual do telhado é feita com o drone, que mostra se há telhas quebradas ou instalações danificadas sem que um profissional precise subir na cobertura para essa checagem. O mesmo vale para fachadas e taludes, que passam a ser observados à distância, com segurança e com registro em imagem”,

explica.

Outros avanços importantes já são observados nos canteiros de obras com o emprego das novas tecnologias, entre eles a redução de custos, mais eficiência e maior lucratividade. Segundo Rattes, a Emccamp vem contabilizando ganhos desde que passou a utilizar drones em seus processos. Um exemplo é o mapeamento de terreno, etapa que se tornou obrigatória para avaliar o potencial construtivo antes da aquisição.

Um levantamento realizado no Rio de Janeiro ilustra a economia proporcionada pela tecnologia. Em um voo programado, a empresa estima economizar R$ 12,5 mil ao substituir a contratação de um serviço de topografia pelo mapeamento com drone. A mudança também reduz o prazo de entrega do levantamento, que passaria de aproximadamente sete dias para até dois dias, considerando o processamento e a análise das informações.

“O ganho aparece em três frentes. A primeira é antecipar dificuldades de execução: desníveis acentuados, volumes de corte e aterro, pontos de drenagem e obstáculos que nem sempre aparecem em plantas ou numa inspeção visual. A segunda é verificar, ainda na fase de análise, se as tipologias de produto definidas pela companhia cabem no terreno de forma eficiente. A terceira é planejar a logística do canteiro antes mesmo da compra, com acessos, entorno, áreas de apoio e fluxo de materiais pensados a partir de dados, e não de estimativas”,

detalha.

Ele ressalta que as imagens aéreas, combinadas com a nuvem de pontos e o levantamento topográfico, oferecem uma releitura do terreno muito mais completa do que a visita convencional. O resultado é uma decisão de compra mais segura. Riscos que passariam despercebidos são identificados antes do investimento, e não depois, com a obra em andamento, o que aumentaria os custos significativamente.

Thiago Luz, analista de inovação da Emccamp, ressalta outra vantagem dos drones, que também interfere nos gastos: acompanhar a evolução física dos empreendimentos, tanto da estrutura das edificações quanto das áreas externas, tornando possível comparar objetivamente o avanço real da obra com o cronograma previsto.

“Também sobrepomos a ortofoto, que é a imagem aérea corrigida e em escala gerada pelo drone, aos projetos do empreendimento, como fundação, terraplenagem e implantação. Essa sobreposição mostra se o que está sendo executado em campo corresponde ao que foi projetado. Assim, identificamos divergências enquanto a correção ainda é simples e barata, antes que se tornem problemas maiores”,

argumenta.

Além de prevenir o retrabalho, Thiago Luz afirma que os drones permitem antecipar problemas que seriam dificilmente detectados pela inspeção convencional. Nas fachadas, por exemplo, por meio de câmeras termográficas, é possível identificar fissuras milimétricas e infiltrações que não haviam sido detectadas por outros meios.

“Também o utilizamos para conferir a conformidade dos telhados e rufos, áreas de acesso complicado e arriscado para uma vistoria a pé”,

acrescenta.

Entre as ocorrências já identificadas com o auxílio dos equipamentos estão pontos de infiltração, fissuras e brocas em fachadas, calhas soltas, falhas na calafetação de esquadrias e estacas deslocadas do eixo. Embora a empresa ainda não tenha um levantamento consolidado da quantidade de problemas detectados antecipadamente, os casos demonstram o potencial da ferramenta para corrigir falhas antes que elas provoquem intervenções mais complexas e onerosas.

Tecnologia

Para Rodrigo Rattes e Thiago Luz, os drones tornaram os processos mais ágeis:

“Uma das aplicações que mais trazem resultado é a conferência do volume de terraplenagem. Com voos antes, durante e depois da movimentação de terra, a nuvem de pontos permite calcular os volumes de corte e aterro efetivamente executados e compará-los ao que foi previsto no projeto. Essa conferência, que antes dependia de levantamentos topográficos pontuais em campo, passou a ser feita com mais rapidez e precisão, e dá mais segurança à medição dos serviços”.

A tecnologia já foi utilizada em 43 locais, sendo 16 obras e 27 novos terrenos, segundo dados da Emccamp. Além dos ganhos de produtividade, a substituição de visitas presenciais por levantamentos aéreos pode reduzir a exposição dos profissionais a riscos como quedas durante inspeções de telhados e fachadas, circulação próxima a máquinas pesadas, movimentação de terra e acesso a taludes ou terrenos instáveis.

De acordo com os executivos, além de terem mudado o processo de aquisição de terrenos e a sequência de inspeção, as novas tecnologias influenciam todo o planejamento do canteiro de obras.

“Com a visão aérea e o levantamento do terreno, conseguimos definir com mais precisão onde as instalações devem ficar para interferir o mínimo possível no fluxo da obra. Com isso, reduzimos as movimentações de canteiro ao longo da execução, respeitando o planejamento executivo”,

acrescentam.

A construtora planeja expandir o uso dos equipamentos para a conferência do prumo de edificações e a automação do processo por inteligência artificial. Mas, segundo Rodrigo e Thiago, a adoção da tecnologia em larga escala pelo mercado ainda esbarra em alguns desafios, como a escassez de profissionais qualificados em patologia construtiva e a falta de mensuração dos resultados, para consolidar a inovação como investimento estratégico, e não como custo operacional.

Com informações e imagens da AeroVision


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