Saiba mais sobre quem faz e como são realizados os levantamentos georreferenciados no Brasil

A atual iniciativa do INCRA no que se refere ao georreferenciamento de imóveis rurais abriu nova oportunidade na área de levantamento neste país tão extenso que é o Brasil. O principal objetivo do projeto está voltado à reforma agrária. Essa é uma iniciativa de grande e importante valor e que pode proporcionar a resolução dos problemas de conflito de terra que assolam o nosso país. É louvável a atitude do órgão federal em questão, que elaborou uma série de diretrizes e normas para a execução dos serviços de georreferenciamento.

Com toda essa informação georreferenciada será possível ter um retrato fiel da situação da distribuição de terras em nosso país, onde estão e quais as dimensões das propriedades rurais. Assim, haverá um maior poder de fiscalização e a divisão justa no setor agrário. Isso tudo aliado aos Sistemas de Informação Geográfica (SIG) permitirá uma visão espacial, consultas rápidas, bem como um melhor planejamento. O maior ganhador será a própria nação brasileira.

Porém, ainda pergunta-se: qual o profissional devidamente qualificado para executar os levantamentos georreferenciados? Foi realizado o planejamento adequado para a realização do georreferenciamento num país com as dimensões do Brasil? Quem e principalmente como é analisada a qualidade das propriedades georreferenciadas? Foi planejada de forma adequada uma migração desses levantamentos para o ambiente SIG?

 

Procura-se aqui, de forma sucinta e resumida, responder inicialmente a algumas destas questões.

Profissão: engenheiro cartógrafo

Quanto ao profissional qualificado, existe uma modalidade muito pouco conhecida no país, mas que cuja atividade é mais antiga que a própria escrita, claro que em outras eras com instrumental muito mais precário que hoje em dia. Esse profissional se chama engenheiro cartógrafo. Porém aos leigos e usuários de geoprocessamento aparecerão novas questões: quem é o engenheiro cartógrafo? O que faz esse profissional?

O engenheiro cartógrafo é o profissional mais devidamente qualificado e habilitado para a elaboração de Cartografia e para as ciências e tecnologias que a utilizam. Em nosso país existem poucas faculdades que formam esse profissional (ver box). Nessas instituições – todas de altíssima qualidade – o futuro profissional deve estudar durante um tempo mínimo de 5 anos em período integral para exercer a profissão. Nesse período são cursadas disciplinas de nome mais estranho que o próprio nome da profissão, tais como Topografia, Geodésia, Fotogrametria, Cartografia, Sensoriamento Remoto, entre outras, que são na verdade as responsáveis pela própria existência do Geoprocessamento. Além disso, é realizada uma sólida formação básica em engenharia, com cadeiras de cálculo, linguagem de programação, álgebra, estatística, cálculo numérico, entre outras. Sendo assim, o profissional pode vincular-se ao sistema CREA/CONFEA por ser um engenheiro.

O profissional deve atuar na elaboração de bases cartográficas e informações georreferenciadas de qualidade nas mais diversas áreas, ou seja, tem um caráter básico multidisciplinar. O fato da necessidade de se determinar, com precisão, o posicionamento de alguma feição existente na superfície terrestre, exige a participação desse tipo de engenheiro.

Os mapas, cartas e plantas não podem ser considerados apenas bonitos, pois a beleza que eles apresentam pode ser uma mera aparência. As informações têm que se posicionar e sobrepor de modo coerente. Não adianta apenas sair por aí com um GPS de mão coletando posições ou simplesmente escanear um mapa e passar para o computador. Métodos como esse, embora aparentemente fáceis de se realizar, não garante uma precisão posicional necessária para atividades de cadastro, sejam rurais ou urbanos. Resumidamente: esse é o profissional indispensável em qualquer projeto que envolva de alguma forma o geoprocessamento.

Planejamento e integração

Voltando às questões anteriores, no que diz respeito ao planejamento sabe-se que em nosso país as soluções, geralmente, são imediatistas e tem-se sempre a cultura de pouco se planejar. Quanto às dimensões do país, sabe-se que somos um dos maiores do mundo e nossos projetos praticamente são todos de médio a longo prazo. Com respeito a como e quem analisa, a resposta neste artigo praticamente foi dada quando se falou no profissional engenheiro cartógrafo. A princípio, acredita-se que se pensou na migração desses levantamentos para um SIG, porém abre-se uma nova questão: os profissionais de outras modalidades de engenharia estão qualificados nesse sentido?

Deve-se ressaltar que a intenção não é de se discriminar e afirmar que o engenheiro cartógrafo é o único profissional habilitado para o georreferenciamento de imóveis rurais. Em nosso conceito, o georreferenciamento não acaba única e exclusivamente no levantamento propriamente dito, com o emprego de GPS e Geodésia, mas sim em todo um projeto com vistas aos Sistemas de Informação Geográfica, que é de caráter multidisciplinar. Isto é, existem os profissionais que produzem as informações georreferenciadas e aqueles que interagem como usuários e utilizam as informações.

Novidade

Um novo projeto será iniciado no Brasil: o georreferenciamento de imóveis urbanos. Espera-se que as autoridades se sensibilizem para melhor conhecer os profissionais devidamente habilitados, de modo que não se repitam os erros e equívocos já relatados no que diz respeito ao georreferenciamento de imóveis rurais.

Deve-se buscar uma conciliação e um diálogo aberto entre os envolvidos: produtores devidamente habilitados e usuários. Deve-se realizar um planejamento, diretrizes e normas adequadas a esse tipo de projeto. Especificações técnicas definidas em conjunto entre quem faz e quem usa.

Cursos de Engenharia Cartográfica no Brasil

UNESP
www.prudente.unesp.br/dcartog

UFPR
www.cartografica.ufpr.br

UFPE
www.ufpe.br/decart

UERJ
www.carto.eng.uerj.br

IME
aquarius.ime.eb.br/~webde6

UFRGS
www6.ufrgs.br/engcart

Marcelo Antonio Nero
marcelo.nero@gmail.com
Engenheiro cartógrafo

Edmilson M. Volpi
emvolpi@fev.edu.br
Engenheiro cartógrafo