Contato com a nova tecnologia provoca mudança de conceitos interpessoais, organizacionais e culturais

Ao longo de um processo de implantação da tecnologia de geoprocessamento, as reações das pessoas envolvidas são bastante variadas. Existem desde os entusiasmados, que imediatamente absorvem as mudanças, até os resistentes, que se sentem ameaçados e fazem de tudo para protelar e criar dificuldades para o andamento da implantação. Mas todos os usuários, ao tomar contato com a tecnologia, suas características e limitações, principalmente quando têm experiência com algum aspecto de cartografia tradicional, são surpreendidos por alguns aspectos da tecnologia que requerem deles uma adaptação, uma mudança de conceitos. Esses "choques" – culturais, tecnológicos, organizacionais, interpessoais – ocorrem em graus variados, mas sempre acabam ocorrendo. Os principais estão listados e discutidos a seguir.

Trabalhar em escala 1:1 – É até polêmico dizer isso assim, mas de fato quando utilizamos a interface gráfica de um GIS, não há nada que exija que trabalhemos mentalmente em coordenadas ou medidas que não as reais. Todas as medidas que tomamos, as coordenadas que consultamos, os dados que digitalizamos podem ser expressos, no momento da operação, em suas dimensões reais. Por outro lado, é comum que pessoas que não conhecem a operação de um GIS, ao visualizar uma tela contendo algo que lhes parece familiar, tenham o impulso de perguntar: "qual é a escala desse mapa?" Primeiro, um "zoom" não é um mapa; segundo, embora seja possível determinar a escala exata do que está sendo apresentado na tela (alguns softwares inclusive têm recursos para informá-la automaticamente), essa informação não ajuda tanto assim na operação do GIS. A escala serve, acima de tudo, como um parâmetro para o resultado impresso, para a produção de saídas. Aí, como queremos em geral que as pessoas possam pegar um mapa impresso e medir distâncias diretamente com o auxílio de uma régua ou um escalímetro, usamos escalas padronizadas e redondas: 1:2000, 1:10.000, 1:100.000. Para o usuário de GIS, esse choque traz implícita a necessidade de se adaptar a uma noção nova: a separação conceitual entre escala e erro, e entre escala e nível de detalhamento. Na cartografia impressa essas noções se misturam, porque os mapas são feitos de modo a manter essas relações sob controle, e porque não é possível dar "zoom" em um mapa. Uma vez livre dessas amarras, um usuário de GIS sente-se mais à vontade para trabalhar interativamente, na tela, com os dados geográficos, reservando suas noções cartográficas para o momento de produzir o resultado impresso.

Trabalhar preferencialmente sem papel – Outro choque, relacionado com o primeiro, é a realidade do trabalho sem papel. É lógico que as promessas da informática de criar o chamado "paperless office" não foram e não vão tão cedo ser cumpridas. Mas em GIS, considerando o potencial de interatividade entre o usuário e os dados, que aproveita a velocidade do processamento e a comodidade das apresentações em tela, deve-se de fato pensar na produção de saídas impressas como um momento de conclusão de um projeto, a consolidação de resultados que foram obtidos em um processo rico de estudos e experimentação.

Trabalho multidisciplinar – Uma das coisas mais interessantes sobre os projetos de implantação de geoprocessamento é a sua característica multidisciplinar. Em todas as situações, de aplicações urbanas a aplicações ambientais, de sensoriamento remoto a logística, o sucesso da implementação do GIS depende fundamentalmente da cooperação entre profissionais de diferentes áreas. O choque aqui vem da constatação de que, em uma equipe formada por pessoas das mais diversas formações, não existe um líder óbvio. Costumo fazer uma analogia entre a equipe de um projeto de GIS e uma esquadrilha, em que cada piloto é especializado em um tipo de manobra. Conforme a manobra requerida, o especialista naquela acrobacia toma a liderança. É, para algumas pessoas, um choque constatar que o ideal em equipes assim é não ter um chefe – e sim ter uma coordenação fluida, negociada e discutida a cada passo do projeto, em que cada um possa dar sua contribuição no momento adequado.

Atualização permanente – Parece incrível, mas para muitas pessoas os documentos ou dados produzidos ou fornecidos por meio de um computador carregam uma certa mística, algo indescritível que coloca aquilo que o computador "diz" na esfera das coisas intangíveis, ou indiscutíveis. É preciso lembrar, a todo momento, de uma velha máxima da informática ("lixo entra, lixo sai") para mudar a atitude mental com relação ao conteúdo dos bancos de dados informatizados, sejam eles geográficos ou não. Em um GIS, principalmente, devemos cultivar a noção de que lidamos com representações simplificadas da realidade, e que nossa capacidade de manter essas representações atualizadas depende de muitos fatores sobre os quais não temos gerenciamento, tais como a dinâmica das mudanças no mundo real. O trabalho de atualização de um banco de dados geográfico, em particular nas situações em que essa dinâmica é muito intensa, se assemelha muito ao mitológico trabalho de Sísifo – um infeliz grego condenado a eternamente empurrar uma pedra redonda morro acima, só para vê-la despencar lá do alto e ter de recomeçar o trabalho todo novamente.

Mais informática – Convenhamos, um dos charmes do geoprocessamento está no uso de uma tecnologia que exige máquinas atraentes e poderosas, em que o conteúdo visual dos bancos de dados geográficos mata de inveja, por exemplo, o pessoal da contabilidade. Mas, como diz uma amiga minha, essa história de informática tem seus problemas, que são muitos, problemas que às vezes são difíceis de suportar mesmo por quem vive disso. Quem é que agüenta ouvir falar de vírus, máquinas que travam, bugs de software, defeitos de hardware, falhas de energia… São sinais da imaturidade da tecnologia de informática, que, apesar da imensa evolução ao longo das últimas décadas, está ainda longe de ser algo estável e absolutamente confiável, e por isso exige de seus usuários tanto uma boa formação quanto uma grande dose de paciência.

Mais banco de dados do que mapoteca – Para quem não conhece a fundo a tecnologia de geoprocessamento pode não parecer, mas o principal produto de um GIS é o banco de dados, não os mapas que são produzidos por ele. Um bom mapa, quando produzido por um GIS, é, antes de tudo, um dos resultados que se pode obter quando se constrói um bom banco de dados geográfico. E aí, o acervo formado em um projeto, ao contrário do que muitos podem pensar quando entram em contato com essa tecnologia, constitui-se principalmente do banco de dados.

Existem diversos outros pequenos choques, que vão afetando gradualmente o neófito em geoprocessamento à medida que a pessoa vai ganhando proficiência no assunto. Tudo o que essa tecnologia oferece é um conjunto de ferramentas, sendo que cada ferramenta pode ser usada de diversas maneiras, por profissionais cuja atuação é também em áreas muito variadas. Essas pessoas, quando intensificam seu contato com a tecnologia, passam a conviver com uma realidade que é familiar aos informáticos: a necessidade de sobreviver profissionalmente em um ambiente em contínua, intensa e veloz evolução.

Clodoveu Davis é engenheiro civil, doutor em Ciência da Computação e assessor de desenvolvimento e estudos da Prodabel – Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte. cdavis@uol.com.br